Por Fernando de Noronha.
Não podemos dizer que haja um grupo de pessoas onde 100 % de seus integrantes sejam honestos e sábios e nem um grupo onde 100 % de seus membros sejam psicopatas. Mas podemos falar de uma imagem que simboliza com grande precisão o que há de pior no ser humano expresso quase sem nenhum disfarce. Esta imagem é uma foto qualquer de uma dessas manifestações que ocorrem no Brasil aos domingos, desde 2014, onde as pessoas usam as principais cores da bandeira do Brasil (verde e amarelo). A primeira coisa que chama ou deveria chamar muito a atenção nessas imagens é que só há gente de pele branca nelas. Manifestações que reúnem um grande número de pessoas nas quais não se vê um único negro.
Mas como pode isso no Brasil, que é um povo miscigenado? Como pode uma imagem dessa representar o povo brasileiro, incluindo todas as classes sociais? Não representa. É sabido que, no Brasil, a segregação social praticamente coincide com uma segregação racial, onde quanto mais escura é a pele da pessoa, mais pobre ela tende a ser. Uma imagem de uma manifestação onde todos são brancos só pode ser uma manifestação de ricos ou classe média alta. Não ricos a ponto de poderem manipular pelo dinheiro todas as formas de poderes instituídos, pois estes não precisam ir às ruas se manifestar, mas pessoas menos ricas, que tem muito dinheiro, embora não tanto assim, que têm um considerável nível de prosperidade econômica e que se destacam no meio do restante da população brasileira. Eles são classe A, mas não chegam a ser elite dominante.
Pode uma manifestação de ricos ser por direitos, e não por privilégios? Essas pessoas freqüentam lugares de luxo e andam de avião com freqüência. Vão a locais públicos chiques, aos quais pouca gente têm acesso.
Frequentam universidades públicas que, historicamente, são exclusivamente deles. Boa parte deles explora a classe trabalhadora para se enriquecerem. Esses são seus privilégios históricos, além de outros. Porém, tais privilégios viraram quase um direito nos tempos em que o PT esteve no poder. Durante este período, muitas pessoas de classes mais baixas ascenderam à classe média e à classe A, passando a andar de avião com freqüência e a freqüentar os locais públicos que eram restritos à tradicional classe A. Os membros desta, vendo esse fenômeno e vendo que começaram a ter que compartilhar seus ambientes privilegiados com aqueles que antes eram da ralé, ficaram profundamente indignados, e cada vez mais indignados com o passar do tempo. Ficaram enfurecidos também por terem seus custos trabalhistas aumentados em prol de direitos que seus trabalhadores ganharam nos governos do PT.
Mas por que isso? Porque o ser humano normalmente não gosta do comum, e sim do especial e do extraordinário. As pessoas não gostam de se identificar com a multidão, e, sim, de se destacar diante dela, preferindo, assim, os privilégios aos direitos, sendo que privilégio é para poucos, enquanto direitos devem ser para todos. Isso faz com que o ser humano seja naturalmente competitivo, e, nessa competição, cada um busca estar em posição melhor do que a do outro e ostentar suas conquistas (isso quando conquistam) aos olhos daqueles que não conseguiram obtê-las também. Todo ser humano tem essa natureza competitiva dentro dele, em maior ou menor grau, o que faz da raça humana uma raça extremamente conflituosa. Assim, a tradicional classe A, ao ver que começou a ter que dividir os mesmos espaços que eram privilégio delas com pessoas de classes mais baixas que subiram de vida, isso é, quando viram que seus privilégios começaram a se tornar algo comum, e não especial, ficou profundamente furiosa com tal fenômeno, numa manifestação de profunda mesquinharia e egoísmo. Ficaram igualmente furiosos os empresários dessa classe que se viram obrigados a dividir sua renda um pouco mais com seus empregados.
Assim, essa classe A tradicional, composta quase exclusivamente por brancos, começou a odiar profundamente Lula, Dilma e o PT, começando por se reunir em manifestações aos domingos para dar gritos de ordem pela destituição do PT do governo federal. Como foi dito acima, é fácil saber que são eles que vão a essas manifestações pelo fato de não se achar um negro presente nelas. Passaram a se identificar com os discursos de ódio de Bolsonaro, os quais são elitistas e cruéis contra pobres e esquerdistas, os quais defendem os direitos das camadas mais pobres. Com o passar do tempo, à medida que a Internet foi dando voz a Bolsonaro e a discursos de ódio como o deles, tal “elite branca” foi saindo do armário e se sentindo livre para proferir publicamente e sem nenhum pudor as maiores aberrações, bestialidades e crueldades contra a esquerda brasileira, que é quem defende os direitos dos mais pobres, do trabalhador e dessa nova classe média que começou a dividir o espaço com ela.
As manifestações de ódio dessa elite branca foram tornando-se cada vez mais intensas. Pediram intervenção militar para destituir a classe política federal. O pretexto para isso sempre foi o combate à corrupção, mas, indubitavelmente, isso nunca passou de um mero pretexto. Eles fazem apologia à ditadura militar brasileira, que durou de 1964 a 1985 e desejam uma reedição desse período nos dias de hoje. Hoje, com Bolsonaro como chefe do poder executivo federal, estão todos os domingos fazendo manifestações pelo fechamento do Congresso Nacional e do STF, para dar ao poder executivo, nas mãos de Bolsonaro, plenos poderes para instalar uma ditadura no Brasil. Eles perderam tanto a vergonha na cara que desejam abertamente a volta do AI-5. Tudo isso para perseguir, torturar e matar petistas, esquerdistas e comunistas.
Sim! Eles são a parte mais privilegiada do povo e vão às ruas se manifestar por um governo que faça uma perseguição sanguinária aos seus inimigos, os esquerdistas, sejam eles figuras públicas ou anônimas. De onde vem tanto ódio se esquerdistas e comunistas nunca fizeram mal nenhum a eles? O único mal que estes atribuem a eles é o fato deles defenderem vida digna para os mais pobres e a ascensão social destes. A esquerda brasileira via com bons olhos o fato de uma nova classe média dividir os mesmos espaços com a tradicional classe A e média, mas, para estas, tal idéia é terminantemente inadmissível. Nem esta elite branca esperava que sentiria tanto ódio ao ver esse fenômeno que eles não esperavam, e agora pedem a cabeça de todos aqueles que defendem vida digna para os pobres e a classe trabalhadora. É tanto ódio pela justiça social que querem derramar o sangue de todos os que a defendem.
Como ter por inocente essa tradicional classe A? Como considerar seus membros como cidadãos de bem? Como não tê-los como gente extremamente corrupta, mesquinha, avarenta e apodrecida moralmente? Como não serem tais pessoas dignas de severo castigo? Mas elas são castigadas de fato. Na lógica capitalista do individualismo e da competição mútua, todos são castigados, inclusive os que vencem essas competições. Vivemos uma ordem social de guerra, e guerra é algo extremamente desgastante para a alma de todos os envolvidos nela. A elite branca não tem paz. Vive agitada ao extremo como o restante da população. Mas essa loucura toda é compensada pelo prestígio social que ela tem e, por isso, acabam amando a rotina louca em que vivem e não se arrependem da sua impiedade.
Portanto, que suas aflições se agravem sobremaneira. Que a COVID-19 seja implacável com eles, aterrorizando e matando eles e suas famílias, as quais são o espelho moral deles mesmos, pois são tão dominados pelo ódio que ignoram a pandemia para se aglomerarem nessas manifestações macabras.
Porque preferiram a miséria da população a dividir seus espaços privilegiados com ela e a vê-la se tornar como eles, assim sejam eles cada vez mais vítimas de bandidos. Sejam cada vez mais vítimas de furtos, assaltos, seqüestros, invasão domiciliar, arrastões e perseguições de bandidos no trânsito. Se acham que mendigos e camelôs sujam a imagem de suas cidades, que estes se unam para aterrorizá-los com esses crimes, caso sejam expulsos de seus locais onde ganham dinheiro.
Que suas conquistas nesta vida sejam para eles um terrível laço. Venham dias piores para todo o mundo, ameaçando de maneira cada vez mais forte a estabilidade do nosso sistema social, político e econômico, para que os que conquistaram posições de prestígio sociais sejam apanhados no seu apego a esta vida. Sejam eles cada vez mais aterrorizados a cada vez que vêem ameaçados de destruição tudo o que construíram. Que tais ameaças sejam cada vez mais freqüentes. Que as enchentes sejam cada vez mais freqüentes e destruam tudo o que é deles cada vez mais.
Que os seus sonhos mais profundos sejam para eles motivos de frustrações cada vez maiores. Que venham crises econômicas cada vez mais avassaladoras para os angustiar profundamente. Desmaiem eles de terror à medida que as ameaças à sua estabilidade social se avolumem cada vez mais. Se não quiseram dividir o mesmo espaço com a ralé nos seus lugares de privilégio, e se não quiseram dar vida mais digna aos seus trabalhadores, então dividam eles os espaço com os mendigos, os indigentes e os mais pobres. Andem eles em transportes coletivos junto com eles.
Que não apenas a destruição da natureza, mas também uma grande guerra, tragam a eles todos esses flagelos. Que a morte os acompanhe além do inferno. Morram cada vez mais por doenças causadas pela má alimentação, por latrocínios, por ataques de atiradores em locais públicos e por outras causas pelas quais já morrem ou já começam a morrer. Morram muitos deles por pestes, catástrofes naturais, ataques terroristas, ataques biológicos e bombas. Que até o dia do colapso desta civilização não sobre nenhum deles vivos para contar a história.
Tudo isso lhes sobrevêm e lhes sobrevirá, e ainda assim lutarão até o fim para mostrarem sua aparência altiva, para que ninguém desconfie de que eles são na verdade uns flagelados. Tudo isso acomete e acometerá também os humanos de outros países que se comportam da mesma maneira. Os pobres e miseráveis também têm o gene da desigualdade dentro deles, e estes já são assolados há muito tempo, pois vão às igrejas e se deixam levar pela sedução das riquezas apregoada por elas. Alguns deles aprendem na miséria a praticar o bem mutuamente, mas, se hoje forem colocados em boa posição social, mudarão e passarão a agir da mesma maneira mesquinha que a nossa classe A.
Mas os que forem realmente de bem, que se desapeguem desta vida. Que estes sejam tranqüilos na fartura ou na calamidade. Que o desapego sempre lhes ensinem a socorrer os necessitados ao seu redor, sempre desejando a eles que melhorem de vida e fazendo o que podem para que isso aconteça. Não se apeguem a sonhos para esta vida neste sistema que está se arruinando, para que isto não lhes seja um laço. Se tudo indica que o grande colapso civilizatório virá, então que estejam atentos desde já a aprenderem como sobreviver a ele, para que, quem sabe, esses sobreviventes possam construir um mundo realmente melhor para as todas as gerações futuras.
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