As chamadas fake News tornaram-se um dos grandes desafios a serem contornados nos tempos modernos, não só no Brasil como no mundo, especialmente no mundo ocidental, e tal desafio se tornou uma das principais preocupações mundiais aproximadamente nos últimos cinco anos. Em nome do tão famoso princípio da liberdade de expressão no mundo capitalista, muitos vêm se opondo a medidas de combate e de mitigação das fake News. De fato, sempre ouvimos falar em liberdade de expressão como se ela fosse absoluta, não tendo limites, até o atual drama das fake News. A atual cruzada contra essas notícias falsas parece se configurar em uma contradição em relação ao princípio da liberdade de expressão. Nunca tínhamos ouvido falar sobre o que a grande imprensa internacional está chamando de limites dessa liberdade. Com base em certos princípios, os países de regime capitalista estabelecem quais seriam esses limites, para dar fundamento ao combate às notícias falsas.
De fato, a liberdade de expressão e outras formas de liberdades concebidas nos países que se fundamentam nos princípios iluministas têm, sim, limites. Certamente que é de se esperar que todo país que dá certas formas de liberdade aos seus povos impõe limites a essas liberdades. A ideia de liberdade absoluta é uma loucura por definição e sempre será vista como loucura por qualquer sistema político, econômico e social que existe, que já existiu e que vai existir. Todos os países sempre terão leis para estabelecer obrigações e proibições com o intuito de garantir a ordem que eles concebem, caso não queiram vivenciar o mais profundo caos dentro deles. No caso da liberdade de expressão propriamente dita, são justamente esses limites estabelecidos nos países capitalistas a ela que legitimam o combate às fake News.
Mas então por que nós não ouvíamos falar sobre os limites da liberdade de expressão até um passado recente? Por que o sistema sempre pareceu dar a entender que essa liberdade é absoluta e com um fim em si mesma? Para se entender o porquê disso, é preciso entender o poder da palavra. A palavra talvez seja a coisa mais poderosa que existe. Palavras não são só palavras. São elas que orientam a ação. São elas que nos levam a todas as formas de aprendizados, que geram hábitos que irão orientar a repetição contínua de determinadas ações. Há um provérbio que diz assim: “semeia-se um pensamento e colhe-se um ato; semeia-se um ato e colhe-se um hábito; semeia-se um hábito e colhe-se um caráter; semeia-se um caráter e colhe-se um destino.”. Todo esse processo descrito neste provérbio se fundamenta no poder da palavra.
A palavra tem o poder de destruir todo um sistema político, econômico e social se for permitido que líderes opositores de tal sistema tenham a liberdade de conduzir ideologicamente as massas nesse sentido, e é aí que se entende o motivo de se combater as chamadas fake News, pois elas têm sido agressivas ao ponto de trazer problemas sérios aos sistemas que concedem aos seus povos a chamada liberdade de expressão. Por isso essa cruzada contra essas notícias falsas.
Mas isso não significa que o combate às fake News seja a luta da verdade contra a mentira. Se fosse assim, viveríamos num sistema onde a justiça reinaria, e não é o que acontece. Vivemos num sistema socialmente excludente, que tem como ordem minimizar a quantidade de trabalhadores trabalhando nas empresas e maximizar sua produtividade. O excedente de mão de obra é destinado a toda forma de perversidade, como o abandono, a fome, a desolação interior que incapacita para o trabalho, a humilhação de não fazer parte da população produtiva, dentre outras. Além disso, enquanto estes estão humilhados socialmente, os que estão trabalhando estão sobrecarregados e cheios de aflições também. Aflições estas que são provocadas pela sobrecarga e mais ainda pela cultura da competição, pois o sistema, por meio de seus aparatos ideológicos, promove a competição em todos os aspectos da vida ao instigar diariamente o que há de pior no ser humano: as manias de grandeza em relação aos outros.
Tal absurdo parece brincadeira, mas é sério. O mundo virou uma grande competição olímpica com poucos vencedores e com uma multidão imensa de “perdedores”, que não são considerados como “alguém na vida”, mas como derrotados e ainda por cima como os únicos culpados por sua derrota, e isso inclui pessoas que estão trabalhando também, mas estão ocupando cargos com baixa remuneração e que não têm o menor prestígio social. Mas como eles podem ser considerados os únicos responsáveis por sua “derrota” se, neste sistema, as pessoas, para “vencerem na vida”, precisam derrotar tantos e tantos e tantos? Portanto, o tal “sucesso” depende não só de cada pessoa, mas dela ser melhor do que as outras que competem com ela pelo mesmo lugar de sucesso. É assim que funciona a justiça no capitalismo. Ela só recompensa os “vencedores”, que são uma ínfima parcela da população total. A promoção da justiça social, mesmo em níveis apenas razoáveis, não é um valor do capitalismo. O que importa é cada um correr atrás de realizar seu sonho individual.
Assim, como é que pode um sistema desse se fundamentar na verdade, e não em terríveis mentiras? Se o sistema se baseia em mentiras, então qual é a diferença entre as mentiras do sistema e as chamadas fake News? São as fake News mais falsas do que os princípios que fundamentam o sistema? Se estamos num sistema fundamentado em mentiras e ele está combatendo o que ele chama de notícias falsas, então há verdades entre essas notícias falsas?
Para se entender melhor isso, falemos primeiro sobre os princípios que fundamentam o sistema capitalista. Para isso, precisamos voltar ao início do século XVIII, quando surgiu o iluminismo, pois é a ideologia iluminista que fundamenta o sistema capitalista. Atualmente não se fala mais em iluminismo, mas, se formos estudar o que o iluminismo produziu no campo das idéias e compararmos essa ideologia com os princípios que fundamentam o capitalismo, notaremos que tais princípios são idênticos a essa ideologia, de modo que o iluminismo se concretizou no capitalismo.
Mas como são lindas as ideias iluministas num primeiro olhar. Falava-se em liberdade, justiça, igualdade de todos perante as leis, uso da razão para se produzir conhecimento e para se investigar a verdade. Falava-se também contra a tirania dos reis, contra a concentração de poder político, contra a escravidão, sobre a necessidade dos governantes servirem aos povos, em vez de serem servidos por eles, sobre democracia e sobre a divisão do poder político em três poderes independentes e vigilantes uns dos outros. O iluminismo também incentivava a rebeldia dos povos para estes “lutarem por sua liberdade”. Inspirou a revolução francesa e as guerras das colônias europeias por sua independência. Para que isso tivesse sido possível, a ideologia iluminista era apregoada por toda a Europa e a América, e onde mais no mundo fosse possível fazer isso. Não era uma pregação restrita a elites. Era aberta a todos os povos do mundo inteiro. A revolução francesa foi a primeira grande consequência dessa pregação, e é justamente o início dessa revolução que marca o início da chamada idade contemporânea na História da humanidade.
Como foi dito, num primeiro olhar, a ideologia, ou filosofia, iluminista parece ser a grande joia de ouro que a humanidade produziu em termos de pensamento para dirigir a humanidade no caminho para a perfeita justiça. Mas ela é o fundamento do capitalismo, pois, com base no princípio da liberdade, foram os filósofos iluministas que conceberam o conceito de liberalismo econômico, onde é dado às pessoas a liberdade de iniciativa para empreender negócios. A liberdade de expressão também é um preceito iluminista. Um dos filósofos iluministas disse: “não concordo com você, mas defenderei até a morte o seu direito de pensar assim”. Como foi dito, a separação do poder político em três podres, o executivo, o legislativo e o judiciário, independentes e auto-vigilantes, modelo político que foi adotado por todos os países capitalistas, também é um preceito iluminista, além de outros preceitos como a democracia representativa e o chamado trabalho livre em oposição ao trabalho escravo.
Então, se o capitalismo se baseia em princípios enganosos e também ao mesmo tempo no iluminismo, que parece mesmo ser a grande pérola da filosofia da humanidade, então o que há de enganoso no iluminismo que possa ser percebido num olhar mais cuidadoso? Provavelmente, a chave para se entender isso é o fato de que o individualismo também é um preceito iluminista. Embora a filosofia iluminista tenha levado povos a se unirem para guerrearem contra a tirania que os governava, a partir do momento em que esses povos “conquistaram sua liberdade” e os princípios do iluminismo se estabeleceram neles, um desses princípios que se estabeleceram também é o individualismo.
Assim, a liberdade iluminista é, acima de tudo, uma liberdade individual que leva em pouca ou quase nenhuma consideração o coletivo. Cada um é livre para seguir seu próprio caminho, mas de maneira solitária ou em pequenos grupos. E é aí que está o ponto: como essas pequenas unidades de indivíduos que lutam cada uma por si para empreender negócios e alcançar o sucesso e a prosperidade fazem parte de uma grande sociedade, elas estão caminhando dentro dela e fatalmente irão entrar em choque com outros indivíduos ou pequenos grupos lutando pelo mesmo lugar de sucesso na sociedade. Isso porque, como foi dito acima, as posições de sucesso na sociedade são muito poucas em comparação com a população total, e, assim, sempre haverá o choque de interesses nessa competição.
De fato, a competição entre indivíduos e grupos acaba sendo, no mínimo, uma consequência inevitável do iluminismo, que é a filosofia que orienta os princípios capitalistas. Porém, não se trata apenas de uma consequência inevitável. Desde os tempos em que a filosofia iluminista era pregada no mundo até hoje, a competição econômica vem sendo ensinada publicamente como a grande motora do crescimento e do desenvolvimento econômico das nações. No ideal do livre comércio, ela é ensinada como sendo a força motriz do progresso econômico. Quem nunca ouviu falar que todo profissional e toda empresa precisam ser competitivos para terem seu lugar no mercado? Porém, como foi dito anteriormente, essa competição premia poucos e condena uma imensa maioria à derrota, assim como acontece em todo tipo de competição.
Só isso é suficiente para entender por que a justiça não impera num sistema que, em teoria, se baseia na liberdade, na igualdade de todos perante as leis, no uso da razão para se produzir conhecimento, na justiça, na democracia e na descentralização do poder político. Um sistema que tem a competição como base, e não a cooperação mútua, não pode ser outra coisa senão uma ordem social de guerra e de caos que sufoca a alma humana. Assim, o princípio iluminista da liberdade se traduz numa competição que, ironicamente, acaba tirando das pessoas a mais elementar e necessária de todas as liberdades, que é a liberdade interior de cada indivíduo.
O fato do capitalismo, também com o aval do iluminismo, permitir que poucos se tornem super ricos pela competição econômica e pela contratação da força de trabalho de muitos para se lucrar com tal trabalho mediante o pagamento de um salário a estes acaba deturpando todos os preceitos iluministas que deveriam, em teoria, estar a serviço do bem estar da humanidade. A produção científica pelo uso da razão não serve à verdade e à justiça, e, sim, ao desenvolvimento de processos produtivos cada vez mais dinâmicos, que tornam os ricos cada vez mais ricos. É dada ao povo a liberdade de expressão, mas, junto com ela, foram criados aparelhos ideológicos que doutrinam as pessoas na cultura capitalista numa verdadeira lavagem cerebral, de modo que o sistema acaba tendo controle sobre o que é falado publicamente, e é assim que a liberdade de expressão absoluta, que, como foi dito, não convém nem mesmo num sistema onde a justiça governa, é suprimida. O poder político, que deveria servir a todos, tende a servir apenas às classes dominantes, em detrimento do direito dos mais pobres, jogando por água abaixo os potenciais benefícios de um poder descentralizado e dividido em três. Todos são iguais perante as leis, mas quem tem mais dinheiro compra a justiça ao seu favor, fazendo isso às vezes com base nas próprias leis. Os aparelhos ideológicos citados acima também pervertem a democracia ao levar o povo a votar em candidatos que representam os interesses dos mais ricos, o que destrói o mito de que a liberdade de imprensa é o grande fundamento da democracia, sendo a imprensa provavelmente o principal desses aparelhos ideológicos.
Um fenômeno do qual vale a pena se falar quando se fala em iluminismo é o do marxismo, fundado por Karl Marx. Uma vez que a justiça iluminista, de uma forma velada, não leva em conta os direitos trabalhistas, isso é, os direitos daqueles que são contratados pelos empreendedores para multiplicar seus lucros, tornou-se necessário começar a se falar em tais direitos, pois a exploração trabalhista no capitalismo talvez tenha sido a mais cruel da História, superando os horrores de todas as formas de escravidão que já existiu. Marx, fundador do socialismo científico em oposição ao socialismo utópico, surge nesse contexto onde era necessário falar-se em direitos e dignidade para a classe trabalhadora, que estava debaixo de violenta opressão nos locais onde trabalhavam. A teoria socialista de Marx foi a que prevaleceu entre os movimentos socialistas até hoje.
O iluminismo inspirou revolução de povos “por sua liberdade”, e foi provavelmente esse clima revolucionário o principal combustível para o marxismo, que pregava, dentre outras coisas, algo semelhante a isto, isso é, a união dos trabalhadores para lutarem contra a opressão de seus patrões. O marxismo também prega o comunismo, que, de maneira mais concreta do que o iluminismo, também fala em liberdade, justiça para todos e igualdade entre todos. Por mais que o iluminismo e o comunismo se pareçam muito nesses aspectos, os movimentos trabalhistas, estimulados pelo marxismo, entraram profundamente em choque com o capitalismo. Assim, surgiram as guerras sangrentas entre patrões e trabalhadores e, mais tarde, a Guerra Fria entre capitalismo e comunismo.
É assim que o iluminismo, que, em teoria, é uma filosofia em busca da igualdade, da liberdade, da justiça e da razão, tomou partido das classes dominantes, isso é, dos grandes capitalistas, e se tornou um engodo enganador que inspirou o império mais mentiroso da História da humanidade: o império capitalista. A Guerra Fria foi uma guerra ideológica entre capitalismo e comunismo, onde o capitalismo pregava basicamente (e prega até hoje) a democracia, a liberdade de imprensa e de expressão e os chamados direitos humanos, e o comunismo buscava soluções para as injustiças sociais, a exclusão social, a opressão contra o trabalhador e a fome. Os dois lados diziam ter as soluções para os problemas da humanidade.
Dessa maneira, como o iluminismo e o marxismo se parecem muito, o capitalismo tinha dificuldades para arrumar motivos para tecer acusações contra o mundo comunista. Para o capitalismo, dizer que as causas comunistas eram mentira, isso é, fake News, seria um tiro no próprio pé. Como não podia atacar o comunismo diretamente, o capitalismo buscou outras maneiras de ataca-lo. Começou a acusar os países comunistas de serem ditaduras sanguinárias que mataram milhões de opositores, enquanto ele se dizia defensor das liberdades individuais e da democracia. Acusou o sistema comunista de não dar certo como sistema político, econômico e social, fadado ao fracasso e a levar seus cidadãos à miséria, enquanto ele, o capitalismo, levava a prosperidade a todos os que queriam trabalhar duro. Para justificar esta última acusação, diziam que o comunismo dividia tudo igualmente entre todos, inclusive com os que não queriam trabalhar, o que levava os que trabalhavam a ficarem desmotivados por ganharem o mesmo que os preguiçosos, levando-os a produzir menos até o fracasso do sistema. Toda essa retórica capitalista contra o comunismo e em defesa de si próprio é falaciosa, com pouco ou nenhum fundamento na realidade.
Repetindo: ainda que o capitalismo seja um inimigo feroz do comunismo, ideologicamente ele não o podia atacar diretamente, acusando seus princípios de serem simplesmente uma pura mentira, fake News. A acusação tinha que ser indireta e/ou velada. Mas, no caso do que acontece nos dias atuais, a extrema direita, que é capitalista, tem inventado mentiras tão grosseiras e agressivas ao próprio sistema capitalista que ela tem sido acusada de ser completamente mentirosa e sua liberdade de expressão tem sido limitada implacável e abertamente, enquanto a liberdade de expressão comunista também é combatida implacavelmente, porém de maneira velada e obscura. As fake News são escancaradas e agressivas, enquanto as mentiras do império da mentira, que é o capitalismo, são veladas, porém altamente destruidoras.
A extrema direita também se apresenta como sendo “do bem”, como é de se esperar de qualquer ideologia que engana as pessoas, porém, suas ideias são muito radicais, com discurso de ódio e apologias ao fascismo e a sistemas ditatoriais, ainda que se apresente como defensora da democracia e das liberdades. Ela se apresenta como um feroz combatente do comunismo, assim como o império capitalista também é inimigo do comunismo, mas, apesar desses dois lados do capitalismo terem um inimigo em comum, eles são, isso é, se tornaram inimigos declarados um do outro. Essas duas ideologias foram aliadas por um tempo, ainda que veladamente, pois tinham interesses políticos comuns, porém, com o tempo, a extrema direita produtora das chamadas notícias falsas começou a não interessar mais ao império capitalista, o império da mentira. A extrema direita passou inclusive a acusar o império capitalista de ser parte de uma grande conspiração comunista, de tão radical e extremista que ela é.
Uma vez que, como foi dito, a luta do sistema capitalista mundial contra a ideologia das fake News não é a luta da verdade contra a mentira, e uma vez que ambos os lados se valem de meias verdades, a pergunta que fica é: até que ponto é verdade o que fala o império capitalista nessa guerra, e até que ponto é mentira o que fala a extrema direita neste conflito? O assunto em que essa guerra fica mais evidente é provavelmente a pandemia do novo coronavírus. Foram inúmeras as notícias falsas produzidas nessa pandemia, e as notícias falsas sempre tem sido atribuídas à extrema direita, enquanto que a verdade tem sempre sido atribuída aos meios de doutrinação ideológica subordinados aos interesses do império capitalista mundial, como a grande mídia nacional e internacional. Porém, sendo ambos os lados mentirosos, será que tudo o que a extrema direita tem falado sobre a pandemia de Covid-19 é mentira e tudo o que o sistema dominante tem falado sobre ela é verdade?
O fato é que há muitos pontos questionáveis no que a grande mídia tem falado sobre essa pandemia e há muitas questões em aberto sobre a pandemia que nunca foram respondidas de maneira convincente pela grande mídia. Um dos pontos é o tratamento precoce da doença do novo coronavírus. Sabemos que toda doença tem mais chances de cura quando tratadas na sua fase inicial, porém, a OMS tem sido confusa quanto ao tratamento adiantado dessa doença, onde parece que a ordem sempre foi esperar a doença chegar num estágio mais avançado para se começar a trata-la, e isso dentro dos leitos dos hospitais, o que gera a tendência de se sobrecarregar o sistema de saúde com pacientes internados. O que está por trás disso?
Outro ponto questionável nas orientações da OMS, subordinada ao império capitalista, é a imposição do isolamento social como única forma de manter a pandemia sob controle, para que ela não se propague e não sobrecarregue os sistemas de saúde mundial, algo que provavelmente poderia ser evitado se um tratamento precoce, isso é, um tratamento no estágio inicial da doença, tivesse sido prescrito pela OMS. O problema é que o isolamento social tem ordenado a suspensão temporária das atividades econômicas de inúmeras empresas, sendo permitido somente o funcionamento dos serviços essenciais, o que levou à quebradeira de inúmeras empresas no mundo todo, indicando que as quarentenas passaram longe de terem sido bem feitas para preservar as empresas. Mais uma vez: o que está por trás disso tudo, e até que pondo a ideologia das chamadas fake News tem razão em questionar essas medidas da OMS.
Se as chamadas notícias falsas apareceram essencialmente para sabotar uma possível, talvez provável, conspiração mundial perversa do sistema capitalista através da pandemia, então a verdadeira motivação para a cruzada contra as fake News talvez seja evitar que tal conspiração perversa não prospere. Aproveitando-se do fato de que, embora as chamadas notícias falsas possam trazer certas verdades, elas consistem essencialmente em mentiras grosseiras e agressivas, o sistema capitalista aproveitou-se disso para acusar a extrema direita, produtora dessas falsidades, de mentirosa e vem combatendo abertamente sua liberdade de expressão.
O campo político também tem sido um dos principais pontos de conflito entre o império capitalista e a extrema direita. O capitalismo ocidental tem sido defensor da democracia representativa como ela é, das liberdades individuais e de imprensa, dos “direitos humanos”, dos estados democráticos de direitos, da separação e independência dos três poderes e de outros princípios que se fundamentam no iluminismo, enquanto que a extrema direita vem com ideias radicais, defendendo, na prática, ditaduras e ideias fascistas e pregando a perseguição aberta aos que ela chama de comunistas, além de defender o conservadorismo nos costumes, como o que ela chama de família tradicional e como o combate às causas da comunidade LGBTQIA+. Apesar de ambos os lados serem capitalistas, eles têm conflitos de interesses no campo político não só pela forma como a política deve ser conduzida, se de maneira democrática ou de maneira ditatorial. Ambos os lados desse conflito, porém, são na verdade muito autoritários, e não democráticos, embora um o seja de maneira velada e o outro o seja de maneira mais escancarada.
Assim, o império capitalista combate ferozmente o comunismo e a extrema direita capitalista, combatendo o primeiro de maneira velada e a segunda de maneira escancarada, falando, no segundo caso, sobre os limites da liberdade de expressão como talvez jamais se viu na história do capitalismo. Isso é assim porque o império capitalista, o império da mentira fundamentado no iluminismo, se parece bem mais com o comunismo do que com a extrema direita fascista.

