De lá pra cá, a televisão aberta - que diga-se de passagem como pontuou Pierre Bourdieu em seu famoso ensaio “Sobre a televisão”, poderia ter se tornado um fantástico mecanismo de democracia direta – acabou perdendo campo para os meios digitais e mais rápidos.
Como efeito colateral (colateral porque Humberto Eco só disse que as redes sociais deram voz aos idiotas em 2015), a facilidade de acesso às informações alienou as mentalidades. Se antes a televisão o fazia em função do monopólio de algumas emissoras e por ser um meio além de popular e de fácil acesso, a internet, que em tese pelo seu infinito prisma de informações deveria suscitar, tencionar a crítica exatamente por ser um “mundo aberto”, de maneira talvez inesperada fez exatamente tudo aquilo que não deveria fazer.
Seria até engraçado se não fosse tão trágico.
Agora voltamos ao ano de 2020.
Hoje se a situação de calamidade pública pudesse ser definida em uma palavra, eu muito, mas muito provavelmente (na verdade o que tenho mesmo é certeza), seria um caldeirão. Acrescente neste caldeirão pra base da receita o contexto que vem lá detrás. E não nos referimos aqui ao histórico de educação básica precária, mas da capacidade da grande massa populacional (e isso foi se tornando mais perceptível nos 3 últimos anos) ter feito pouco ou nenhum caso para a ciência. Não a ciência no sentido laboratorial, mas sim a valorização do conhecimento acadêmico, cientificamente comprovado, compromissado e distante de especulações e generalizações. Mais do que propor soluções e novos caminhos, o papel primordial da mesma é fomentar a criticidade e entender porque certos encaminhamentos e rumos são construídos de uma dada forma a fim de auferir os melhores resultados futuros. Para os mais atentos, uma amostra deste histórico pode ser observada mais uma vez hoje (31 de março de 2020), quando ocorreu algo que nos pegou de robe logo de manhã cedo: jornalistas após serem hostilizados, simplesmente deram de ombros e abandonaram uma entrevista cedida pelo atual presidente.
Segundo Sérgio da Motta e Albuquerque em artigo publicado no ano de 2012 no Observatório da Imprensa, jornalismo pode não ser ciência (um dos motivos se deve ao fato de não haver regulamentação da profissão no Brasil), mas o seu estudo é: a prática, a construção, o método. O papel da imprensa, visa cobrir aquilo que é de interesse público mesmo que ainda ela de certa forma imponha o que deve ou não ser de interesse popular. Mas o fato é que, por mais rodeios e malabarismos retóricos uma notícia por vez tenha, há uma checagem, um método. O problema é que se a ciência virou pão dormido, muita gente acabou confundindo corrente de Whatsapp como um substituto à altura da imprensa tradicional.
Naquele caldeirão que nos referimos mais cedo, ponha agora no combo da receita a quase (ou total) falência da representatividade política do Brasil. Instintos dos mais terríveis afloraram do fruto da indignação do povo de anos para cá, fazendo o Brasil desaguar em um cenário em que “vale mais aquilo que eu sinto do que aquilo que eu sei”. Nesse “custe o que custar”, foi eleito Messias. Justando a indignação com o custe o que custar, a informação que era validável, verificável e que gozava até de certo prestígio, caiu em desuso e as bolhas de informação surgiram fazendo prevalecer o comportamento de manada. Como consequência direta, a mídia tradicional contando com a chancela do atual representante perdeu força. Até aí tudo bem, se não fosse o coronavírus.
Quando as diferentes mídias ao redor do mundo começaram a noticiar sobre o atual cenário, o consenso era e ainda é de se adotar medidas restritivas mesmo que isso cause crise econômica (que alguns inclusive julgam inevitável). Aí é interessante observar que o histórico de desapreço pela boa informação e pelo conhecimento tangível no Brasil, agora aparece para cobrar seu preço. Não importa se o que está sendo mostrado com as notícias é A, vale o B que Messias diz. Mas esse dito que faz tanto estrago como um projétil só é disparado porque esse gatilho não é puxado sozinho: há uma extensa rede que vincula e divulga estes chavões movidos por um sentimento que é um híbrido de despolitização, fé cega (faca amolada) e até certo nível desespero por uma melhora imediata para a situação posta na mesa. O problema da busca por soluções estar alicerçada em princípios que tem sua eficácia tão duvidosa, é que se chegou ao ponto do que é comprovável virar descartável, o instinto valer mais que a razão.
No que concerne a crise atual, é um cenário arriscado para nós pois as medidas restritivas adotadas que visam assegurar um rombo “menos pior” estão sendo questionadas e atacadas por hipóteses que sequer são científicas. O fato da imprensa perder a sua credibilidade só potencializa essa questão. Não por entender que ela possa estar de má fé e objetivar sabotar um mandado político, mas sim porque as medidas buscadas são sem mais nem menos um consenso, ponto pacífico de todo meio de comunicação que tenha sua credibilidade comprovada.
Por mais estranho e surreal que pareça, foi exatamente um tipo de comportamento atípico e desarrazoado, oposto a tudo que se espera de um estadista que ganhou a corrida eleitoral (não vamos considerar outras variantes aqui). A imprensa na época, e isso é interessante observar, tentava não impulsionar sua eleição justamente atacando exatamente por este prisma: a negação da realidade e os chavões e frases de efeito que seria a “pedra filosofal” da nossa Idade das Trevas catapultada pelos comunistas comedores de criança.
Resultado? Tiro pela culatra. Talvez (só talvez) isso tenha ocorrido justamente porque muita gente pensa igual a ele. E talvez hoje adesão ao discurso negacionista do COVID-19 tenha ganhado força porque muita gente ainda assim, depois de dois anos e quase nada concretamente feito, ainda endossa as falas do rapaz. Aí acrescente no caldeirão uma população delirante.
Por que o abandono da imprensa conforme noticiado é importante, afinal? Porque talvez seja hoje, talvez, a hora de não dar voz a quem não sabe o que fala. De fato, os discursos proferidos pelo presidente via internet, para parte da população, foi apenas para AQUELA parte da população. Parte esta que dá aval a estas atitudes irresponsáveis por compactuar com este tipo de posicionamento ao mesmo tempo que ignoram a informação crível que diga-se de passagem, está passando logo mais pela sua janela (ou tela, que seja). Sacramenta-se aí o que chamamos do famoso comportamento de manada. Mas há um outro lado dentro deste lado que é exatamente aquele que digere estas ideias talvez porque tais notícias e opiniões ao serem talvez única fonte de informação que estas pessoas - e muitas delas desconexas com a realidade e a complexidade de alguns contextos - tem como confiáveis.
E aí reside a armadilha, o alçapão que pega de surpresa: dar vazão a estes discursos intensifica, fortalece o raio de ação e auxilia na captura de mentes vulneráveis que apoiarão ideias negacionista e que prestam um desfavor ao mínimo funcionamento saudável do que se entende enquanto regime democrático de direito. As mentes menos preparadas são “peixe na rede” para estas ideias e isso tem se evidenciado dia após dia.
Por que então a imprensa deve virar as costas? Para além do próprio respeito à dignidade do jornalista, também é uma maneira de “não dar um tiro pela culatra”. A máxima de que “não existe propaganda ruim” foi sacramentada nas últimas eleições exatamente pelo fato de tanto ser vinculada tal propaganda gratuita a todo tempo.
Que virem as costas. Deixe que diga, que pense e infelizmente que fale. Mas esse que faça, fique restrito apenas aos seus seguidores e suas bolhas em que a realidade calamitosa atual só a eles interessa. Messias tem comprado a briga com a imprensa de maneira intempestiva, agressiva, deslegitimando a informação séria em seu benefício próprio que se nutre do impulso, do revanchismo e principalmente da ignorância. Essa corrida, ele já mostrou que vence a passos largos.
Mas será que ele consegue vencer quem ele não consegue ver? A imprensa que não está mais lá, que não lhe dá voz e o silêncio passa a ser o único resto de “qualquer coisa” a ser servido, saído desse caldeirão?