sexta-feira, 13 de março de 2020

PORNOLOGIA: ENTRE O SAGRADO E O SAFADO


Por Eldon Rosamasson.


As palavras pornografia e pornologia são inspiradas nas suas origens gregas, porneía. Porneía dentre muitas citações, é o termo utilizado pelo apóstolo Paulo quando o mesmo pretendia exortar às suas igrejas a se afastar da "impureza" moral, ou seja, da prostituição, do adultério, da fornicação e etc. E como essas impurezas se referiam, também no texto sagrado, à lascívia e a luxúria dentro do comportamento sexual, nós passamos a nos referir aos excessos da carne como pornografia, e no nosso caso, como pornologia, para ser mais específico nesta reflexão.

Só pode existir o que nós denominamos atualmente como pornografia, em uma sociedade que tem a percepção do sagrado como a que nós construímos com os anos, somando a tudo isso, ou seja, ao senso do sagrado, o mundo do trabalho que emergiu com a industrialização, pois não apenas a religiosidade tradicional tem uma orientação e um regramento a respeito da conduta sexual dos indivíduos, mas também o mundo da indústria pretendeu e pretende que existam homens e mulheres cada vez mais comprometidos e focados na rotina trabalhistas, e menos interessados na recreação dos prazeres da carne. Esse foi inclusive, um dos fundamentos éticos e morais da sociedade vitoriana que emergiu na Inglaterra do século XlX.

Pois assim como a partir da antiguidade mais remota e medieval, o sagrado e o profano se confundiram e se confrontaram por aproximadamente uns mil anos, a industrialização sacralisou o trabalho através da "ética protestante e o espírito da capitalismo", e demonisou qualquer atividade que pudesse dispensar demasiada energia em coisas que não estivessem diretamente relacionadas à produção. Neste caso, foram inventadas novas relações entre o sagrado e o profano, e uma delas, é o que eu chamo carinhosamente de a relação entre o sagrado e o safado. Pois esse é o espírito urbano da atual porneía, ou melhor, esse é o espírito metropolitano da popular pornografia. O sagrado e o profano caminhavam muito próximos um do outro, razão pela qual a Escolástica se esforçava tanto, ora para dizer que a fé a a razão se misturam através de um Anselmo, ora para dizer que a fé e a razão se separam através de um Abelardo, e ora para dizer de maneira quase derradeira que a fé e a razão devem ter cada uma delas o seu lugar específico na consciência dos homens através de um Dun Scotus. Mas quando o trabalho, a produção e o lucro foram divinizados acima de todas as coisas, eles precisavam com isso, também inventar os seus mais novos demônios, o que fez com muito êxito, a sociedade e a cultura vitoriana, satanisando o sexo como atividade recreativa demoníaca, pois agora, o orgasmo nosso de cada dia deveria dispensar a sua energia, não para se deliciar a prazeres que fossem apenas efêmeros e passageiros, mas sim, o ponto G da energia sexual, deveria ser talvez atingido, para que os trabalhadores se interessassem cada vez mais na produção de filhos, ou seja, na feitura de trabalhadores, ou seja, na fabricação de massa proletária. E o contrário disso deveria ser relegado aos guetos da prostituição.

Mas se fosse para sacralizar os desmandos dos prazeres do sexo, que ele também inventasse a sua indústria, a indústria da porneía, a indústria da pornografia. Uma das provas de que a pornografia foi construída nas relações entre o sagrado e o safado, é a pouquíssima ou quase nenhuma produção acadêmica a respeito da mesma. Pois em algumas pesquisas feitas por conta própria, eu percebi que a literatura que se cria a respeito desse tema, faz parte geralmente, de heranças das tradições que continuam a falar em nome do sagrado. Geralmente são religiosos, padres e pastores, que escrevem livros e dão palestras a respeito dos supostos efeitos psicologicamente danosos da pornografia, do sexo antes do casamento e até da masturbação na vida das pessoas, especialmente das pessoas mais jovens.

Mas desde especialistas como a sexóloga Marta Suplicy, o falecido psicanalista especialista em sexualidade Flávio Gicovati, e até hoje com a popular doutora Laura Muller do programa do Serginho Groisman, a pornografia como material de estudo específico, é muito pouco explorada pelas pessoas de direito. Com isso, se perde a abordagem profana e cognoscente que esse fenômeno urbano poderia ter. E principalmente com um agravante, pois quando a pornografia não está sendo pronunciada no âmbito moralista do sagrado por ministros religiosos, ela é falada, quase com unanimidade, na literatura e cultura áudio visual da sua própria indústria. Ou seja, é uma relação hostil e indireta entre o sagrado e o safado, que praticamente, não é visitada mais detida e detalhadamente pelos postulados da razão e da academia. E o que isso tem de muito relevante? alguém poderia me perguntar. É muito comum os especialistas dizerem que os casais costumam ser na cama o que eles são por hábito na vida social. E evidentemente, a pornografia é uma radiografia bastante detalhada das representações sociais que nós temos, e que se refletem por debaixo dos nossos lençóis e edredons.

Ela é com certeza, um dos materiais mais férteis de conhecimento a respeito das nossas muitas relações de poder, sobretudo, onde o machismo ainda perdura com a opressão do feminino. Percebam por exemplo, que o homem da cena, além de quase nunca receber o enfoque das câmeras, é sempre uma espécie de guia racional nas encenações. E mais, ele não costuma nunca se perder em gemidos estridentes, salvo por um brevíssimo tempo na hora do seu orgasmo, que é o seu momento mágico. Porém as mulheres geralmente, representam a hibris e o comportamento desmedido. Ela é sempre a louca de pedra dos encontros ou a doidona da orgia, que geme e geme constante e transloucadamente. Essas são evidências que refletem como quase nada na nossa sociedade, que os atributos da razão e da dominação ainda são valores a serem valorizados bem mais no masculino, e quase nunca no feminino, que deve socialmente representar as emoções. Por exemplo, as pesquisas são enfáticas em dizer que na maioria esmagadora das sociedades do planeta, homens costumam ganhar mais que mulheres fazendo relativamente as mesmas coisas.

Mas segundo especialistas, no mundo da moda e na indústria da pornografia, são as mulheres que costumam ganhar mais. Ou seja, ao homem, o poder e a força, à mulher, à beleza e a honra. Neste caso, quando homens e mulheres vão competir regularmente nas relações de poder do dia a dia, o homem leva uma certa vantagem na vida das sociedades, mas quando é a beleza dos corpos nus ou vestidos que é enfatisada, aí o processo das relações de poder se inverte e passa a favorecer mais a mulher que o homem. Essa é mais uma lição que nós podemos aprender com a nada recatada professora porneía, esse é mais um ensinamento da nossa conselheira mais tarada, a tia pornografia. E como a pornografia seja talvez, o fenômeno sexual e urbano mais órfão da reflexão intelectual, eu resolvi tentar dar uma simples contribuição à essa lacuna. Ou talvez chamar a atenção de nós pesquisadores para perdermos o falso recato de falarmos do tema. Principalmente as mulheres, devido aos excessos de expectativa masculina das cenas pornográficas, sempre muito machistas.

Pois a indústria da porneía, que é a indústria da pornografia e da impureza, por ter a desculpa da isenção do humor e da recreação, tem de tudo, cenas de estupro, xingamentos degradantes, cusparadas na cara, espasmos no rosto e etc. Ou seja, a pornografia é o lugar e a indústria do que é underground e submundano por excelência. Ela é o andar de baixo da culminância dualista na relação hostil entre o sagrado e o safado. E como uma apresentação a todo o mundo das academias, essa é a porneía, essa é a pornografia, muito prazer, e que o orgasmo seja todo nosso.

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