quinta-feira, 22 de outubro de 2020

O ENGODO DA CULTURA DOS GRANDES SONHOS



Por Fernando de Noronha

Todos somos seduzidos pela idéia de querer crescer na vida, mas o que aconteceria se todos fossem gerentes, engenheiros, empresários, grandes artistas, etc.? Quem seriam os trabalhadores operacionais, os empregados dos empresários, os subordinados, os fãs que compram as obras dos artistas? A sociedade não precisa de todos os tipos de profissionais? As pessoas que exercem profissões que não têm reconhecimento moral na nossa cultura não são apenas indispensáveis como serão sempre a grande maioria na sociedade? Então que lógica existe numa cultura onde estamos sempre sendo estimulados a realizar grandes sonhos, grandes conquistas? Por que não sonhar ser um profissional de nível operacional, e por que não são reconhecidos moral e financeiramente os profissionais deste nível? Vamos ilustrar essas coisas com um exemplo. O que você vai ver agora parece-se com um exercício de matemática, mas, embora seja uma demonstração com números, pode ser entendido por qualquer pessoa. Portanto, se você não gosta de matemática, não desanime da leitura, pois creio que não te será pesada.
Imagine uma sociedade, uma empresa, por exemplo, onde o dono lidera diretamente 10 gerentes, os quais por sua vez lideram 10 outros gerentes, cada um, havendo portanto 100 gerentes no segundo nível, os quais, por sua vez, lideram, cada um, 10 outros gerentes, havendo portanto 1000 gerentes no terceiro nível. Estes, por sua vez, lideram 10 trabalhadores operacionais, cada um, havendo portanto 10 mil trabalhadores no nível operacional, tendo a empresa, portanto, 11 mil e 111 pessoas trabalhando nela (pois o total de trabalhadores na empresa é a soma dos trabalhadores de cada nível, que é 1+10+100+1000+10000 = 11.111). Quais são as chances máximas para todas as pessoas de um nível subir para outro acima e não descer mais, se todos estiverem disputando para subir de nível? Isso é logicamente impossível, não é? Somente no nível operacional há 10 mil trabalhadores, e há, portanto, apenas 1.111 pessoas liderando direta ou indiretamente sobre esses 10.000. Como podem 10000 pessoas ocuparem 1.111 vagas? A quantidade de candidatos do nível operacional para cada vaga de gerência (incluindo a vaga do dono da empresa), é de 10.000/1.111 = 9. Portanto, a dura realidade é que 9 em cada 10 trabalhadores operacionais nessa empresa terão que se conformar em ser trabalhadores operacionais por toda a vida. 
Falando de uma forma mais geral e precisa, a grande maioria dos trabalhadores operacionais de qualquer empresa sempre serão operacionais, ou no máximo serão empreendedores de um negócio sem empregados, pois esses números são ainda mais desanimadores se formos considerar uma empresa real qualquer, e, portanto, não adianta mudar de empresa ou organização para mudar essa realidade. Logo, a ideia de que todos poderiam realizar sonhos grandiosos é uma ilusão venenosa. O que está sendo dito aqui é que você pode sonhar ocupar lugares altos da nossa sociedade, pode lutar por isso com todo o seu empenho, pode praticar atos desonestos e injustos para alcançar esse objetivo, mas isso não quer dizer que você alcançará o que quer. Não depende apenas de você, depende de você ser melhor do que as pessoas com as quais você compete para chegar onde quer. Você deseja um status que muito pouca gente pode obter, em comparação com toda a humanidade, mas toda a humanidade é seduzida a ocupar posições de alto status. 
E o que torna uma pessoa melhor, isso é, mais preparada do que outra para alcançar grande sucesso social? Quanto melhores forem as condições econômicas da família em que uma pessoa nasce, maiores são as chances dela alcançar grande sucesso social, pois tais pessoas terão a melhor educação para as qualificar para as melhores posições da sociedade e terão menor (ou nenhuma) necessidade de trabalhar enquanto estudam e se qualificam. É claro que o esforço pessoal é indispensável para o sucesso, e talvez seja mesmo o fator mais importante para isso, mas está longe de ser suficiente para tal objetivo. Mas agora imagina todo mundo competindo em pé de igualdade? Se você faz uma prova para competir por um emprego onde há 10 candidatos por vaga, e se a pessoa que ficou em último lugar na prova tirou 90 % da pontuação máxima, não adiantou ela ter pontuado tão alto, pois apenas um décimo dos candidatos, os que ficaram nos primeiros lugares, é que ocuparão as vagas. Se suas qualificações forem insuficientes apesar de todo o seu esforço, você estará sempre dando murro em ponta de faca na sua luta por uma alta posição.
Não seria este o motivo de haver tanto transtorno de ansiedade e depressão, e tanta violência e falsidade hoje em dia, isto é, a ocorrência de tantas frustrações por causa dos sucessivos fracassos decorrentes das competições da vida, ou pelo desejo de se alcançar algo alto e fazer-se tão pouco por isso por se sentir tão distante da meta a se alcançar? A vida humana não virou uma competição em tudo? Se você entende que conquistar o que tanto quer não depende apenas de você, mas também de você ser melhor, isso é, estar mais bem preparado do que os que competem com você pela mesma coisa, não estaria você expondo suas emoções a risco devido às muitas derrotas que você poderá enfrentar, e devido ao fato de que você poderá nunca alcançar o que quer pelo simples fato de não depender apenas de você? 
"Sonhe alto! Lute por ser o primeiro lugar nas Olimpíadas, no esporte que você pratica! Sonhe ser um grande empresário! Um grande líder! Um músico famoso!" Não é isso que diz a auto ajuda, mídia e muitas igrejas? Pense num carteiro que trabalha num CDD com aproximadamente 45 carteiros, dois supervisores e um gerente. Poderão todos os 45 carteiros serem os 2 supervisores ou o gerente desse CDD. Não há a menor condição para isso, não é? Ou ainda, se esses 45 carteiros forem supervisores ou gerentes de outros CDD’s, não terão eles que serem melhores do que os carteiros destes CDD’s, se assumirmos que todos os carteiros de todas essas unidades estão disputando pela chefia? E ser um gerente de um CDD não é grande coisa em comparação com as manias de grandeza do ser humano. E o exemplo dado no início é bastante elucidativo, onde foi usado matemática para demonstrar o que estou tentando passar, sendo que a matemática é exata. Não dá margem à interpretação. Qual é o seu sonho? Você sonha com as estrelas? Quantas pessoas estarão sob sua liderança se os seus sonhos se realizarem? Quantos serão seus admiradores se os seus sonhos se realizarem? Dá pra fazer dos seus sonhos uma meta da qual jamais se deva desistir? 
Em um outro exemplo, se todos lutarem por fazer um curso superior para conseguirem um bom emprego, isso não significa que todos vão alcançar isso, afinal, a grande maioria dos empregos não exige curso superior. Desta maneira, uma pequena parte desses todos ocupará os cargos de nível superior, e o restante ocupará os outros empregos menos desejados, mas que são indispensáveis para o bom andamento da sociedade civilizada. Nem mesmo o sonho de se tornar um profissional de nível superior está acessível a todos, e nem mesmo à maioria. Isso não porque as pessoas não se esforçam para isso, mas porque é lógica e matematicamente impossível isso acontecer. A pergunta é: por que fazer faculdade para conseguir um bom emprego se todos os empregos deveriam ser bons, já que são indispensáveis?
A sociedade moderna é semelhante a uma pessoa que contrai uma doença que faz com que as células do seu corpo comecem a brigar umas com as outras para comporem as células do cérebro. O que acontecerá com tal pessoa se ela não for curada? Não é preciso ser médico para saber que uma doença assim levaria à morte. Eu tenho por certo que a principal razão de haver tantos transtornos de depressão e ansiedade nos dias de hoje é essa nossa competição do nosso dia a dia. Não apenas os transtornos de ansiedade e depressão teriam a competição moderna  como principal fundamento, mas também a violência, se formos considerar que a ira surge de um desejo ansioso frustrado, sendo a ira a base da violência. 
Muitos orientais querem vir para o Ocidente por causa da nossa liberdade e por causa da possibilidades de enriquecimento, mas nem mesmo os ocidentais, isto é aqueles que vivem no regime capitalista, sabem precisamente quão terrível é viver aqui. As pessoas que desenvolvem depressão e transtorno de ansiedade atribuem a sua doença a diversos fatores, mas não são capazes de enxergar além e ver o quanto sua doença está relacionada ao sistema político, econômico e educacional em que vivem. E quando falo em sistema educacional, eu não me refiro somente às escolas, mas a todas as mega instituições que existem para transmitir informação, como a mídia, as religiões e as editoras. Somos enganados todos os dias com a ilusão do crescimento acessível a todos, por todas essas instituições. 
Você pode estar se perguntando: e o que vamos fazer para mudar isso? Em primeiro lugar, não há mudança que se possa fazer na estrutura da sociedade que a mude de fato se cada pessoa dessa sociedade não mudar interiormente. Se não fosse assim, o comunismo teria sido a solução para os problemas da humanidade. A questão é: estamos dispostos a mudar interiormente? Talvez não tenhamos nem motivação para isso! Talvez não haja nada a fazer senão continuarmos nossa caminhada rumo ao caos e ver nossa própria ruína. Embora haja uma minoria que têm consciência dessas coisas e encontraram seu caminho, e embora possa haver pessoas que, tomando consciência dessas coisas, seriam capazes de mudar suas vidas e não voltar mais atrás, este texto não tem a intenção de mudar o mundo, pois é notório que o ser humano normalmente é muito resistente a uma mudança que nos levaria à harmonia. Aliás, quem não riria se fosse dito que este texto mudaria o mundo ao ser publicado?

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

DIREITOS OU EMPREGOS



Por Fernando de Noronha

O que será que é melhor: termos um governo trabalhista e termos nossa economia sabotada pelos grandes capitalistas, os quais não querem mais saber de direitos trabalhistas, ou sermos governados pela direita e os trabalhadores perderem seus direitos? É aquele dilema que os empresários apresentaram ao Bolsonaro: "trabalhador vai ter que decidir entre menos direitos e emprego ou todos os direitos e desemprego". A Venezuela pode ser vista como um exemplo de "todos os direitos e desemprego". A Argentina está indo pelo mesmo caminho. Os grandes capitalistas estão colocando em prática essa lógica. Se o país é governado pela esquerda, eles retiram de lá seu capital para destruir sua economia e colocar o povo contra o governo. 
Seria, então, o Brasil um exemplo de "menos direitos e emprego"? Sim, mas isso só mostra que essa lógica empresarial sobre direitos e empregos é bem mais perversa do que dá a entender que é. Mesmo antes do coronavírus, o desemprego enorme no Brasil não foi de fato diminuído com a reforma trabalhista de Temer e a MP e a lei da liberdade econômica de Bolsonaro. Sem dúvidas que o cenário econômico do Brasil é melhor do que o da Venezuela, mas até que ponto isso está sendo melhor para o trabalhador brasileiro do que para o trabalhador da Venezuela? Menos direitos é eufemismo. Nós estamos é com MUITO MENOS direitos! Trabalhar e ter direito a apenas uma folga por mês??? Isso é vida? Será que isso é melhor do que passar fome? Até que ponto? Outra pergunta que cabe é: até que ponto a situação da Venezuela é caótica? Até que ponto a mídia diz a verdade sobre o que está acontecendo lá? Se há manifestantes do povo defendendo o regime de Nicolás Maduro, então será que as coisas lá estão destruídas assim? 
De fato, há empresários que trabalham de domingo a domingo e dormem pouco. Mas são empresários, geralmente médios e grandes, que fazem isso. São pessoas que trabalham para elas mesmas e tem várias outras trabalhando para elas. São pessoas cuja sobrecarga de trabalho é muito bem recompensada por suas riquezas e por seu prestígio social. Agora o que dizer de trabalhar para os outros e ter direito a apenas uma folga por mês? Quem trabalha nesse regime por uma mixaria, sendo ainda considerado socialmente como um derrotado por estar num “empreguinho”, pode estar feliz? Um sistema onde se trabalha para os outros nesse regime, debaixo de muita cobrança e pressão, num ambiente altamente competitivo, pode ser chamado de ordem social ou deveria ser chamado de caos. O nosso caos é realmente melhor do que o caos da Venezuela? O que é pior? Uma ordem social caótica ou o caos como ele é? Viver para trabalhar dessa maneira é realmente melhor do que estar desempregado e entregue ao abandono? 
O que os empresários vêm impondo no Brasil, de Michel Temer para cá, é extremamente cruel com o trabalhador. O mesmo os empresários estão fazendo no resto do mundo. A classe trabalhadora perdeu muitos direitos e muito pouco tempo nos países governados pela direita! Quanto falta para voltarmos à opressão que era nos tempos da primeira Revolução Industrial, quando os trabalhadores se revoltaram ao ponto de preferirem morrer em guerras contra os seus empresários do que viverem na opressão em que viviam? Até onde vai chegar toda essa destruição dos direitos trabalhistas, que têm levado muitos à informalidade pelo fato deles verem que é impraticável trabalhar com carteira assinada nas condições que são impostas hoje? 
Parece mesmo que está cada vez mais difícil para a classe trabalhadora decidir entre “menos direitos e emprego ou todos os direitos e desemprego”. Se chegarmos num ponto em que os trabalhadores vão pegar em armas novamente para guerrear contra o aparato militar dos grandes capitalistas, aí não haverá mais dúvidas de que é melhor termos um governo trabalhista e termos a economia sabotada do que vivermos essa nova ordem social que o capitalismo está impondo no mundo.

TOPTREND dos Amigos da Ursal

OS PROBLEMAS DAS PRIVATIZAÇÕES, ESPECIALMENTE A DOS CORREIOS

 Texto atualizado em 12/09/219  as 15:02 “Privatiza que a qualidade do serviço prestado vai melhorar”, é o que dizem os defensores da priv...