O SUCESSO E O FRACASSO DOS GOVERNOS DE ESQUERDA DA AMÉRICA LATINA
De 2003 a meados de 2016, a esquerda esteve na presidência do Brasil. Foi adotado, neste período, um modelo de desenvolvimento econômico que enfatizava a inclusão social, com melhoria de vida para trabalhadores e a massa mais pobre em geral. Os indicadores econômicos foram melhorando progressivamente. Foi possível manter o controle da inflação e ao mesmo tempo diminuir drasticamente a taxa básica de juros. Os gastos públicos aumentaram, mas a arrecadação de impostos aumentou num ritmo maior, o que levou o país a ter superávit fiscal e a experimentar uma drástica redução de seu risco para investimento, atingindo o grau de investimento e chegando a ser um dos cinco países mais confiáveis do mundo para os investidores. As reservas internacionais do banco central aumentaram grandemente.
No campo social, pode-se dizer que, neste período, o “PIB dos pobres” aumentou mais do que o PIB geral, pelo menos até o final de 2014. Até esta data, o desemprego caiu de 12,5 % para 4,5 %, a renda média do trabalhador aumentou significativamente sem perda de direitos trabalhistas, a concentração de renda diminuiu, o Brasil saiu do mapa da fome, com a miséria quase erradicada, tendo apenas 1,7 % de sua população vivendo na pobreza extrema. Um outro avanço no campo social, no período de 2003 a 2014, foi que as condições de trabalho melhoraram significativamente, onde as empresas tiveram que investir mais em segurança do trabalho e em saúde ocupacional. Outros avanços sociais foram alcançados nos governos de esquerda que governaram o Brasil, pelo partido dos trabalhadores, entre 2003 e meados de 2016, como na área da saúde e da educação. Portanto, grandes avanços econômicos e sociais foram alcançados nesse período.
Porém, já em 2013, uma grave crise econômica estava se formando no Brasil, a qual se transformou numa catástrofe social a partir de janeiro de 2015, quando o desemprego começou a crescer assustadoramente. Em maio de 2016, quando a então presidente Dilma Rousseff sofreu impeachment e a esquerda saiu do poder, o Brasil já estava com mais de 11 milhões de desempregados. Neste pequeno período de 1 ano e 5 meses, o desemprego cresceu a uma taxa muito maior do que a taxa de crescimento de desemprego de todos os 8 anos do governo FHC. Neste mesmo período, o Brasil perdeu o grau de investimento e inúmeras empresas fecharam as portas. Assim, grande parte do que o PT construiu em 12 anos foi destruído em apenas 1 ano e 5 meses, se bem que a crise já tinha começado a surtir efeito já em 2013, como dito anteriormente.
É válido ressaltar que processo similar aconteceu em outros países da América Latina que foram ou ainda são governados pela esquerda, como a Venezuela e a Argentina. Estes países também adotaram um modelo de desenvolvimento econômico com ênfase na inclusão social, tendo o combate à pobreza como prioridade, mas estes países também experimentaram uma quebradeira que os fez retroceder terrivelmente, nos âmbitos social e econômico, especialmente a Venezuela. Assim como o Brasil, a Venezuela e a Argentina estavam indo bem no combate à pobreza, mas todos esses progressos sociais foram por água abaixo nesses países, e em um curto espaço de tempo.
A INSUSTENTABILIDADE DO MODELO ADOTADO PELA ESQUERDA LATINO-AMERICANA
Pergunta-se: o que foi que deu errado? O que aconteceu no meio do caminho que levou a retrocedermos tão profundamente? Muitas explicações têm sido dadas para tal fenômeno. Uma delas é a de que “o socialismo não dá certo em lugar nenhum”, por ser supostamente um sistema que leva as pessoas ao comodismo e, conseqüentemente, conduz os países que o adotam à falência. Essa explicação é infundada por dois motivos. Um é que os países latino-americanos governados pela esquerda nunca foram socialistas. Eles continuaram seguindo as regras do neoliberalismo mesmo com a esquerda no poder. Como foi dito anteriormente, o que a esquerda fez de diferente nesses países foi dar ênfase num grande processo de inclusão social. O outro motivo é que essa idéia de que o socialismo é autodestrutivo porque leva as pessoas ao comodismo não encontra o menor embasamento na experiência humana. Nenhum livro didático de História atribui à falência do socialismo no mundo esse suposto comodismo.
Outra explicação para as crises econômicas e sociais que rapidamente afundaram países da América Latina enquanto governados pela esquerda é a corrupção. No caso do Brasil, há uma “tese” que diz que a corrupção nos governos petistas atingiu um patamar absurdamente grande, o maior da história, sem páreo, a qual teria sido a grande responsável pela grave crise atual. O fato, porém, é que a idéia de que a corrupção nos governos petistas atingiu um patamar jamais visto neste país se baseia apenas no imenso escândalo midiático, ao longo de mais de 10 anos, a respeito dos supostos esquemas de corrupção envolvendo o PT. O fato, porém, é que os números relativos aos totais desviados nos esquemas de corrupção petistas são pequenos em comparação com os totais desviados em esquemas de corrupção de outros governos que já passaram pelo Brasil. Só para exemplificar, o mensalão petista, que foi considerado “o maior esquema de corrupção da história brasileira”, teria desviado, nas estimativas mais pessimistas, 200 milhões de reais em cerca de dois anos e meio, que é uma quantia pequena perto dos quase 2 bilhões desviados numa única tacada no caso do banco Marka, no governo FHC.
Há ainda explicações de ordem econômica, segundo as quais o governo Dilma teria adotado uma política econômica “desastrosa” e começou a gastar mais do que arrecadava. Essas explicações, porém, não levam em conta todos os fatos e variáveis econômicas do governo Dilma. Como foi dito anteriormente, o Brasil chegou a ser um dos cinco países mais confiáveis para investimento no mundo, e isso aconteceu no primeiro mandato da petista Dilma Rousseff. Um fato curioso é que foi justamente nesse período em que o Brasil estava na sua melhor época para receber investimentos que os investidores pararam de investir aqui, e esta foi a principal causa da crise atual. Além disso, a atual crise brasileira não afetou significativamente importantes conquistas econômicas dos governos petistas, como a drástica redução da taxa básica de juros e do risco Brasil, conquistas estas que foram realizadas mantendo-se a inflação sob controle. No âmbito social, embora o Brasil hoje tenha voltado ao mapa da fome, a quantidade de pessoas na pobreza extrema hoje ainda é muito menor do que era antes do PT chegar ao poder. Fala-se hoje em 13.5 milhões de pessoas na pobreza extrema. Este número era de 36 milhões de pessoas por volta do ano 2000. Portanto, as conquistas sociais e econômicas dos governos petistas foram perdidas parcialmente.
A explicação mais plausível para a derrocada econômica de países da América Latina então governados pela esquerda, como o Brasil, é sabotagem. Este texto poderia abordar o interesse norte-americano em derrubar os governos de esquerda da América Latina, por terem estes se desvinculado de seus interesses de dominação. Nesse aspecto, poderia-se falar aqui sobre o fato do Brasil ter-se aproximado de Cuba, o que viola o embargo imposto àquele país pelos EUA. Sim, tudo indica que esses países foram sabotados política e economicamente pela elite do capital do mundo, para colocar os seus povos contra seus governos de esquerda. Não é assunto deste texto entrar em detalhes sobre tal sabotagem, mas, sim, falar sobre o que poderiam ser as principais motivações para a mesma.
Vamos falar sobre o exemplo do Brasil. Pode-se dizer, dentro de um certo ponto de vista, que o PT cometeu um “grave erro”. Um erro que fez com que sua política econômica e social não fosse sustentável a longo prazo, de fato. E que erro foi esse? Como foi dito anteriormente, o PT criou um modelo de desenvolvimento econômico com ênfase na inclusão social. Os governos petistas, de fato, deram mais ênfase na melhoria de vida para as classes mais baixas do que para a economia no geral. Foi dito anteriormente também que o PIB dos pobres aumentou proporcionalmente mais do que o PIB geral, o que diminuiu a desigualdade social. Embora os mais ricos tenham aumentado seus lucros nos governos do PT, esses lucros não aumentaram na proporção em que eles desejavam, pois eles experimentaram um aumento de custo com impostos, com trabalhadores e com as condições de trabalho, e isso desagradou profundamente essa elite do capital presente neste país. Já em 2006 a grande mídia tentou impedir a reeleição de Lula, e tentou impedir a eleição de Dilma em 2010, com táticas sujas de perversão da opinião pública. Como essas tentativas foram sem sucesso. Começou-se a sabotagem econômica a partir de 2011.
Então, o grande “erro” do PT foi ter feito os ricos dividirem um pouco de suas riquezas com seus trabalhadores. Eles não aceitam isso. Não aceitam perder nunca. Por isso, eles usaram seu poder econômico para derrubar a esquerda do poder neste país, e o mesmo ocorreu em outros países da América Latina governados pela esquerda. Parece mesmo que, neste mundo onde todos são incentivados a acumular riquezas, a praticar a avareza e a competir uns com os outros, não é possível um modelo de desenvolvimento econômico com inclusão social sem ao mesmo tempo satisfazer todas as vontades mais insanas da elite do capital mundial.
A China parece ter entendido isso. Ela foi o primeiro país comunista a praticar uma economia capitalista, dando ênfase na inclusão social e ao mesmo tempo satisfazendo todas as vontades dos grandes empresários que entraram lá a procura de mão de obra barata. Essa mudança econômica adotada na China foi em 1979, e o país, num espaço de tempo de cerca de 30 anos, conseguiu reduzir a pobreza de seu país de 68 % da população para 10 %. A partir de 1989, a China experimentou um crescimento econômico colossal, que a tirou de uma posição insignificante entre as potências mundiais para a posição atual de segunda maior economia do mundo, e a China continua a ser o país que mais cresce economicamente no mundo. O país combateu a pobreza interna de maneira espetacular, mas o fez ao mesmo tempo aumentando a sua concentração de renda, o que significa que o PIB geral lá aumentou mais do que o PIB dos pobres. Se os pobres da China ficaram mais ricos, os ricos de lá ficaram proporcionalmente ainda mais ricos. Sua estabilidade política também foi fundamental para que ela chegasse a ser uma economia tão inabalável. O partido comunista chinês nunca saiu do poder durante esse processo de capitalização de sua economia.
O SUCESSO DO MODELO ECONÔMICO E SOCIAL DAS NAÇÕES DESENVOLVIDAS
Mas será mesmo que é isso? No mundo em que vivemos, só é possível levar a prosperidade aos mais pobres se os mais ricos forem mais prósperos ainda? E o que dizer então dos países capitalistas europeus onde o trabalhador é valorizado e a desigualdade é relativamente baixa, como os países escandinavos? Por que países escandinavos têm desigualdade de renda entre as mais baixas do mundo? Isso não mostra que neles os ricos tiveram que dividir com os mais pobres? Isso não seria indício de que eles formam uma civilização superior, moralmente? Ou, por outro lado, isso não é evidência de que os trabalhadores desses países são os mais politizados do mundo, e que sua luta por direitos e por melhores salários obrigou os mais ricos de lá a dividirem suas riquezas com eles? O mesmo não teria acontecido nos outros países de primeiro mundo porque seus trabalhadores são altamente politizados e lutaram arduamente para conquistar o que hoje eles têm?
Sem dúvidas que as lutas trabalhistas foram e são fundamentais para a conquista de tantos direitos que os trabalhadores possuem hoje, mas tal luta não aconteceu apenas nos países de primeiro mundo. Essas revoluções trabalhistas vêm acontecendo também em países emergentes, como o Brasil, e neles também a classe trabalhadora conquistou direitos. No tempo da ditadura militar brasileira, houve até guerrilha urbana para se implantar o comunismo aqui. Sob pressão de tais lutas, até mesmo a ditadura militar concedeu direitos aos trabalhadores. Mas se em países como o Brasil também houve conquista de direitos, então por que os salários nesses países são tão baixos? Por que o poder de compra do proletariado dos países emergentes é tão inferior ao do proletariado dos países de primeiro mundo?
Sobre a questão da renda maior ou menor da classe trabalhadora, existe uma outra variável que independe das lutas trabalhistas. Esta variável é a renda per capta. E o que é a renda per capta, mais precisamente? Ela é definida como o PIB de um país em um determinado ano dividido pela população de tal país no mesmo ano. E o que é exatamente o PIB? Embora o PIB dos países do mundo seja medido em unidade monetária, o dólar, ele não mede a quantidade de dinheiro existente nos países, e, sim, a quantidade de bens e serviços produzidos nos países no período de um ano. Então, a renda per capta é, em outras palavras, a quantidade de bens e serviços que cada indivíduo de uma nação é capaz de produzir em um ano, se todos os indivíduos de tal nação fossem igualmente produtivos. É, por assim dizer, a produtividade per capta média de um país.
Isso significa dizer que a quantidade de bens e serviços por pessoa circulando nos países de primeiro mundo é muito alta. Para se ter uma idéia, a renda per capta da Noruega, ou sua quantidade de bens e serviços circulando por pessoa, é cerca de 5 vezes a do Brasil. Aí é que está o ponto: se um país tem uma quantidade muito alta de bens e serviços circulando dentro dele em comparação com sua população, isso significa que tais bens e serviços estão sendo comprados e consumidos. E quem os está comprando e consumindo? É a própria população de tal país. Ou seja, a alta produtividade de um povo faz com que ele também se torne um povo de alto padrão de consumo, o que, em última análise, os leva a ter poder aquisitivo maior do que o poder aquisitivo dos povos de renda per capta menor, até porque é interessante para a indústria que seus produtos sejam consumidos pelo maior número de pessoas possível.
Mas, então, se na Noruega cada pessoa produz 5 vezes mais do que cada brasileiro, em média, isso significa que o cidadão norueguês trabalha cinco vezes mais do que o brasileiro? Não. Isso significa que eles têm um desenvolvimento científico/tecnológico muito superior ao nosso. A grande utilidade da ciência e tecnologia no mundo capitalista é tornar os processos cada vez mais produtivos, o que leva a uma maior produção com cada vez menos trabalho. Então, se de um lado da balança a produção aumenta, do outro lado, a quantidade de trabalho para tal produção diminui, o que faz com que a carga horária de trabalho em países desenvolvidos seja aproximadamente a mesma de países emergentes como o Brasil. Analisando-se todo esse processo pela ótica da lei da oferta e da procura, o que temos é que um país de primeiro mundo, com alta renda per capta, tem uma oferta muito grande de bens e serviços dentro dele, o que faz com que os preços dos mesmos sejam baixos o suficiente para caberem dentro do bolso da classe trabalhadora.
Mas e quanto à desigualdade dos países de primeiro mundo? Por que ela tende a ser mais baixa do que a de outros países? Vamos primeiro falar sobre a desigualdade de renda da classe trabalhadora nos países de primeiro mundo. Os países escandinavos, por exemplo, onde se aplica a política do Estado de bem estar social, o qual promove saúde e educação gratuita de qualidade, não existe salário mínimo definido por lei. Neles, os salários são definidos pela negociação entre empregador e candidato a vaga de emprego. Mesmo nos países de primeiro mundo onde existe salário mínimo definido por lei, é comum os salários serem definidos por esse tipo de negociação. Mesmo assim, os salários mais baixos desses países dão ao trabalhador um poder de compra muito superior ao de salários baixos de países emergentes, e a desigualdade de salários neles também tende a ser menor do que no resto do mundo, o que indica que até o fenômeno da desigualdade social menor nesses países é um fenômeno econômico, e não tanto um fenômeno social.
Mas como isso? Quando os salários são definidos por negociação, e não por lei, vale aí também a lei da oferta e da procura, e não apenas a quantidade de riquezas que um determinado trabalho gera para sua empresa. Nos países desenvolvidos, a demanda por profissionais altamente qualificados é muito maior do que no resto do mundo, e, por isso, eles investem pesado em educação de qualidade e criam uma cultura que leva seus povos a buscarem o maior nível de qualificação possível, gerando também uma oferta muito grande de trabalhadores qualificados. À medida em que a quantidade de trabalhadores altamente qualificados no mercado de trabalho vai crescendo e a de trabalhadores de menor qualificação vai diminuindo, os salários de trabalhos altamente qualificado vão diminuindo e os de trabalhos de menor qualificação vão aumentando, o que diminui a desigualdade de renda entre esses dois tipos de trabalhadores. Considerando o fator riquezas que um trabalhador gera para uma empresa, que faz com que o salário de um dado trabalho seja maior quanto maior for a capacidade dele de gerar riquezas, temos que os trabalhos de maior qualificação geram mais riquezas do que os de menor qualificação, por terem um envolvimento maior com tecnologias, as quais, como foi dito antes, tornam os processos cada vez mais produtivos. Isto é um fator que pressiona pelo aumento da desigualdade de salários entre um e outro tipo de trabalhador, mas é necessário ressaltar que mesmo os trabalhadores de baixa qualificação dos países de primeiro mundo precisam ter um nível de qualificação e escolarização consideravelmente superior ao do mesmo tipo de trabalhador de países emergentes, pois também lidam com tecnologias superiores para aumentar a produtividade de seus trabalhos. Essas coisas são o que provavelmente explicam a menor desigualdade de salários desses países como fruto de um fenômeno econômico.
Quanto à desigualdade entre empresários e trabalhadores, ela é menor nos países de primeiro mundo porque as despesas de suas empresas tendem a ser proporcionalmente maior do que no resto do mundo pelo fato delas terem custos trabalhistas maiores. Porém, os empresários desses países são em média bem mais ricos do que os de países emergentes. Vamos imaginar que, no Brasil, por exemplo, uma empresa de 100 funcionários de um dado setor tenha uma despesa que equivalha a 60 % de sua receita, o que dá 40 % de margem de lucro sobre a receita ao empresário. Vamos imaginar que uma empresa de 100 empregados do mesmo setor, na Noruega, tenha uma despesa equivalente a 80 % de sua receita, o que faz com que a margem de lucro dessa empresa seja de apenas 20 %. Se, porém, a produtividade da empresa da Noruega for 5 vezes a da empresa brasileira, então o empresário da Noruega vai estar tirando uma margem de lucro de 20 % de uma receita 5 vezes maior do que a receita da empresa brasileira, da qual seu empresário tira uma margem de lucro de 40 %, fazendo com que, em última análise, o lucro do empresário da Noruega seja 2,5 vezes o lucro do empresário brasileiro.
Então veja como o padrão de qualidade de vida da população de países de primeiro mundo, em termos de poder aquisitivo do seu povo, é tão interessante aos empresários que estão presentes neles, mesmo nos países de Estado de bem estar social como os países escandinavos. Até a desigualdade social menor desses países é um fenômeno econômico que beneficia altamente a classe empresarial presente neles. E embora os países de primeiro mundo onde se aplica o Estado de bem estar social garanta muitos direitos à sua população, ele está, em última análise, mais a serviço dos grandes empresários do que de seus povos, visto que, por exemplo, o oferecimento de uma educação pública de qualidade a todos atende aos interesses de formação de mão de obra qualificada demandada pelas empresas, especialmente as grandes. Então os empresários desses países estão muito satisfeitos neles. Sua sede voraz por lucros e poder econômico e financeiro cada vez maiores é bem satisfeita dentro deles. Para as multinacionais, criar sociedades de alto padrão de consumo, pelo menos em uma quantidade não muito grande de países, atende bem aos seus interesses de busca por lucros cada vez maiores, pois seus produtos e serviços são consumidos em larga escala dentro desses países, e é por isso que eles não sofrem sabotagem do império capitalista.
Parece mesmo bacana isso: sociedades onde os trabalhadores foram valorizados pelo fenômeno da lei da oferta e da procura, em algumas das quais nem é necessário fixar um salário mínimo determinado por lei por este motivo. A lei da oferta e da procura é a base de todos os fenômenos econômicos, principalmente no capitalismo, onde o liberalismo econômico tende a estabelecer que o valor de qualquer coisa (e até de pessoas) seja determinado tão somente pela ação dessa lei. Por isso mesmo é que é comum a lei do salário mínimo ser violada em países capitalistas onde ela existe, onde muitos empregadores pagam salários abaixo do mínimo a muitos de seus funcionários pelo fato da lei básica de mercado citada acima determinar que eles valham menos do que tal salário.
DIREITOS SOCIAIS AMEAÇADOS NAS NAÇÕES DESENVOLVIDAS
Mas o que dizer disso tudo? A única opção viável para que trabalhadores tenham alto poder aquisitivo é essa? É necessário para isso que a sede voraz por poder econômico e financeiro dos grandes empresários seja satisfeita inteiramente? É isso aceitável desde que nós que estamos na base da pirâmide tenhamos bons salários? É preciso ficar claro que esses povos de alto padrão de consumo pagam um preço muito alto para isso: eles têm que ser produtivos demais. Se, por um lado, há países de primeiro mundo onde a carga horária é de apenas 6 horas por dia, você pode estar certo de que o tempo que esses povos passam estudando para adquirem qualificação para produzir tanto em apenas 6 horas de um dia é muito maior. Eles também estão sobrecarregados, como todos os povos dos países de economia capitalista. Somando-se o tempo que os povos de países desenvolvidos passam trabalhando com o tempo que eles passam estudando, é de se imaginar que eles estão bem mais sobrecarregados dos que os povos de países como o Brasil, pois tudo isso está a serviço de uma produtividade per capta muito alta.
Além disso, é necessário relembrar que esse fenômeno econômico que acaba beneficiando a classe trabalhadora de países de primeiro mundo a beneficia somente no âmbito econômico, pois os direitos a menores cargas horárias de trabalho e a melhores condições de trabalho, no sentido de preservar a saúde ocupacional dos trabalhadores, foram conquistados com muita luta e derramamento de sangue. Muitos trabalhadores morreram nessas lutas, as quais proporcionaram à classe trabalhadora mundial muitos direitos a uma melhor qualidade de vida, em maior ou menor grau, dependendo do país. Tais direitos, porém, estão ameaçados no mundo todo. A doutrinação capitalista, que estimula cada indivíduo na busca da realização de grandes sonhos individuais, destruiu a consciência de classe dos trabalhadores no mundo capitalista, desunindo-os e colocando-os como competidores uns dos outros à medida em que eles vão percebendo que têm sonhos individualistas em comum e que estão lutando pelas mesmas posições de prestígio social. Assim, a classe trabalhadora mundial desunida virou presa fácil para os grandes empresários, os quais se aproveitam disso para tirar direitos e mais direitos conquistados por ela. As reformas trabalhistas não aconteceram só no Brasil. São um fenômeno que tende a acontecer no mundo todo. E aí surge a pergunta: com uma alienação e uma desunião tão profundas, quantos direitos precisam ser tirados dos trabalhadores no mundo capitalista para que estes voltem a lutar por direitos como antigamente?
O QUE DEU ERRADO NO CAPITALISMO EM TODO O MUNDO
Mas uma pergunta ainda mais pertinente é esta: será que é possível termos uma sociedade com real qualidade de vida para todas enquanto o ser humano tiver uma natureza competitiva, a qual está dentro da raça humana desde muito antes de surgir o capitalismo, desde que o ser humano surgiu na terra? Será mesmo que é somente pelo conflito de classes que os trabalhadores vão conquistar real qualidade de vida? Será que a classe trabalhadora sequer chegou a conquistar uma qualidade de vida plena em qualquer lugar do mundo por meio das lutas por direitos, que eram verdadeiras guerras sangrentas no passado?
A humanidade sempre foi conflituosa. As disputas por poder e domínio sempre foram decididas na base da guerra. A ganância nunca permitiu que as nações fossem amigas e dividissem entre elas, de forma justa, as terras, os recursos naturais e os bens produzidos por elas. O atual conflito entre a classe dominante e a classe trabalhadora não garantiu a esta a realização de uma vida plena, até porque as taxas de suicídios tendem a ser bem maiores nas nações desenvolvidas do que no resto do mundo. Sobre a questão da natureza competitiva do ser humano, e não cooperativa, a classe dominante, como foi dito anteriormente, soube trabalhar bem essa debilidade humana para, por meio da doutrinação capitalista, corromper a classe trabalhadora, a qual facilmente caiu nesse engodo. Assim, os trabalhadores se desuniram e viraram inimigos uns dos outros, pois não há um ser humano na terra que não tenha desenvolvido uma natureza competitiva; e, agora, a classe dominante não está tendo muita dificuldade de reverter os direitos que eles conquistaram.
Como se tudo isso não fosse o bastante, vivemos um verdadeiro genocídio psicológico na atualidade. Nunca se viu tanta gente destruída por dentro. Transtornos mentais de todas as espécies vêm assolando terrivelmente a humanidade regida pelo capitalismo. E como poderíamos esperar algo diferente disso numa sociedade onde a competição, travestida de liberdade, é a base de todo o processo produtivo. Não é sufocante ter que se qualificar tanto e ter que disputar com tanta gente para tão somente ter uma colocação minimamente digna no mercado de trabalho? Não é sufocante para uma pessoa ter que estudar muito para a prova de um concurso e pensar, na hora que ela está sendo aplicada, que tem um monte de gente que também estudou muito e está fazendo a mesma prova, disputando com ela em pé de igualdade por algumas vagas em alguma empresa ou outra organização qualquer? Não é sufocante até para grandes empresários terem que estar constantemente antenados com as mudanças dinâmicas que ocorrem no mercado devido às novas tecnologias que vão surgindo e viverem tendo que reconstruir todo o seu negócio, de tempos em tempos, para não serem engolidos pela concorrência? Tal como nas Olimpíadas, as competições do sistema capitalista sempre têm poucos vencedores e muitos perdedores, os quais vão se tornando depressivos e angustiados à medida em que acumulam frustrações em disputas nas quais são derrotados.
Então, parece mesmo que não temos reais chances de vivermos uma vida plena, em todos os sentidos, enquanto o individualismo e a competição mútua forem a regra básica de todos os processos econômicos, políticos e sociais. Se é possível mudarmos essa nossa natureza, temos que persistir na busca por essa mudança, tentando descobrir continuamente como realizá-la e ao mesmo tempo sermos livres e felizes interiormente. Agora, se não é possível mudar tal natureza, então estamos destinados a ser uma raça profundamente infeliz enquanto existirmos. E então? O capitalismo deu certo mesmo, como costumam dizer aqueles que vivem atacando o comunismo? Só deu certo como um sistema excessivamente produtivo e capaz de engolir economias de menor produtividade que não se ajustam aos seus interesses de dominação. Mas deu totalmente errado no sentido de produzir real bem estar social, psicológico e existencial para seus povos. Neste sentido, o capitalismo é uma catástrofe humanitária sem precedentes, e isso faz dele o sistema que mais deu errado em toda a História.O CAPITALISMO DEU CERTO, MESMO?
O SUCESSO E O FRACASSO DOS GOVERNOS DE ESQUERDA DA AMÉRICA LATINA
De 2003 a meados de 2016, a esquerda esteve na presidência do Brasil. Foi adotado, neste período, um modelo de desenvolvimento econômico que enfatizava a inclusão social, com melhoria de vida para trabalhadores e a massa mais pobre em geral. Os indicadores econômicos foram melhorando progressivamente. Foi possível manter o controle da inflação e ao mesmo tempo diminuir drasticamente a taxa básica de juros. Os gastos públicos aumentaram, mas a arrecadação de impostos aumentou num ritmo maior, o que levou o país a ter superávit fiscal e a experimentar uma drástica redução de seu risco para investimento, atingindo o grau de investimento e chegando a ser um dos cinco países mais confiáveis do mundo para os investidores. As reservas internacionais do banco central aumentaram grandemente.
No campo social, pode-se dizer que, neste período, o “PIB dos pobres” aumentou mais do que o PIB geral, pelo menos até o final de 2014. Até esta data, o desemprego caiu de 12,5 % para 4,5 %, a renda média do trabalhador aumentou significativamente sem perda de direitos trabalhistas, a concentração de renda diminuiu, o Brasil saiu do mapa da fome, com a miséria quase erradicada, tendo apenas 1,7 % de sua população vivendo na pobreza extrema. Um outro avanço no campo social, no período de 2003 a 2014, foi que as condições de trabalho melhoraram significativamente, onde as empresas tiveram que investir mais em segurança do trabalho e em saúde ocupacional. Outros avanços sociais foram alcançados nos governos de esquerda que governaram o Brasil, pelo partido dos trabalhadores, entre 2003 e meados de 2016, como na área da saúde e da educação. Portanto, grandes avanços econômicos e sociais foram alcançados nesse período.
Porém, já em 2013, uma grave crise econômica estava se formando no Brasil, a qual se transformou numa catástrofe social a partir de janeiro de 2015, quando o desemprego começou a crescer assustadoramente. Em maio de 2016, quando a então presidente Dilma Rousseff sofreu impeachment e a esquerda saiu do poder, o Brasil já estava com mais de 11 milhões de desempregados. Neste pequeno período de 1 ano e 5 meses, o desemprego cresceu a uma taxa muito maior do que a taxa de crescimento de desemprego de todos os 8 anos do governo FHC. Neste mesmo período, o Brasil perdeu o grau de investimento e inúmeras empresas fecharam as portas. Assim, grande parte do que o PT construiu em 12 anos foi destruído em apenas 1 ano e 5 meses, se bem que a crise já tinha começado a surtir efeito já em 2013, como dito anteriormente.
É válido ressaltar que processo similar aconteceu em outros países da América Latina que foram ou ainda são governados pela esquerda, como a Venezuela e a Argentina. Estes países também adotaram um modelo de desenvolvimento econômico com ênfase na inclusão social, tendo o combate à pobreza como prioridade, mas estes países também experimentaram uma quebradeira que os fez retroceder terrivelmente, nos âmbitos social e econômico, especialmente a Venezuela. Assim como o Brasil, a Venezuela e a Argentina estavam indo bem no combate à pobreza, mas todos esses progressos sociais foram por água abaixo nesses países, e em um curto espaço de tempo.
A INSUSTENTABILIDADE DO MODELO ADOTADO PELA ESQUERDA LATINO-AMERICANA
Pergunta-se: o que foi que deu errado? O que aconteceu no meio do caminho que levou a retrocedermos tão profundamente? Muitas explicações têm sido dadas para tal fenômeno. Uma delas é a de que “o socialismo não dá certo em lugar nenhum”, por ser supostamente um sistema que leva as pessoas ao comodismo e, conseqüentemente, conduz os países que o adotam à falência. Essa explicação é infundada por dois motivos. Um é que os países latino-americanos governados pela esquerda nunca foram socialistas. Eles continuaram seguindo as regras do neoliberalismo mesmo com a esquerda no poder. Como foi dito anteriormente, o que a esquerda fez de diferente nesses países foi dar ênfase num grande processo de inclusão social. O outro motivo é que essa idéia de que o socialismo é autodestrutivo porque leva as pessoas ao comodismo não encontra o menor embasamento na experiência humana. Nenhum livro didático de História atribui à falência do socialismo no mundo esse suposto comodismo.
Outra explicação para as crises econômicas e sociais que rapidamente afundaram países da América Latina enquanto governados pela esquerda é a corrupção. No caso do Brasil, há uma “tese” que diz que a corrupção nos governos petistas atingiu um patamar absurdamente grande, o maior da história, sem páreo, a qual teria sido a grande responsável pela grave crise atual. O fato, porém, é que a idéia de que a corrupção nos governos petistas atingiu um patamar jamais visto neste país se baseia apenas no imenso escândalo midiático, ao longo de mais de 10 anos, a respeito dos supostos esquemas de corrupção envolvendo o PT. O fato, porém, é que os números relativos aos totais desviados nos esquemas de corrupção petistas são pequenos em comparação com os totais desviados em esquemas de corrupção de outros governos que já passaram pelo Brasil. Só para exemplificar, o mensalão petista, que foi considerado “o maior esquema de corrupção da história brasileira”, teria desviado, nas estimativas mais pessimistas, 200 milhões de reais em cerca de dois anos e meio, que é uma quantia pequena perto dos quase 2 bilhões desviados numa única tacada no caso do banco Marka, no governo FHC.
Há ainda explicações de ordem econômica, segundo as quais o governo Dilma teria adotado uma política econômica “desastrosa” e começou a gastar mais do que arrecadava. Essas explicações, porém, não levam em conta todos os fatos e variáveis econômicas do governo Dilma. Como foi dito anteriormente, o Brasil chegou a ser um dos cinco países mais confiáveis para investimento no mundo, e isso aconteceu no primeiro mandato da petista Dilma Rousseff. Um fato curioso é que foi justamente nesse período em que o Brasil estava na sua melhor época para receber investimentos que os investidores pararam de investir aqui, e esta foi a principal causa da crise atual. Além disso, a atual crise brasileira não afetou significativamente importantes conquistas econômicas dos governos petistas, como a drástica redução da taxa básica de juros e do risco Brasil, conquistas estas que foram realizadas mantendo-se a inflação sob controle. No âmbito social, embora o Brasil hoje tenha voltado ao mapa da fome, a quantidade de pessoas na pobreza extrema hoje ainda é muito menor do que era antes do PT chegar ao poder. Fala-se hoje em 13.5 milhões de pessoas na pobreza extrema. Este número era de 36 milhões de pessoas por volta do ano 2000. Portanto, as conquistas sociais e econômicas dos governos petistas foram perdidas parcialmente.
A explicação mais plausível para a derrocada econômica de países da América Latina então governados pela esquerda, como o Brasil, é sabotagem. Este texto poderia abordar o interesse norte-americano em derrubar os governos de esquerda da América Latina, por terem estes se desvinculado de seus interesses de dominação. Nesse aspecto, poderia-se falar aqui sobre o fato do Brasil ter-se aproximado de Cuba, o que viola o embargo imposto àquele país pelos EUA. Sim, tudo indica que esses países foram sabotados política e economicamente pela elite do capital do mundo, para colocar os seus povos contra seus governos de esquerda. Não é assunto deste texto entrar em detalhes sobre tal sabotagem, mas, sim, falar sobre o que poderiam ser as principais motivações para a mesma.
Vamos falar sobre o exemplo do Brasil. Pode-se dizer, dentro de um certo ponto de vista, que o PT cometeu um “grave erro”. Um erro que fez com que sua política econômica e social não fosse sustentável a longo prazo, de fato. E que erro foi esse? Como foi dito anteriormente, o PT criou um modelo de desenvolvimento econômico com ênfase na inclusão social. Os governos petistas, de fato, deram mais ênfase na melhoria de vida para as classes mais baixas do que para a economia no geral. Foi dito anteriormente também que o PIB dos pobres aumentou proporcionalmente mais do que o PIB geral, o que diminuiu a desigualdade social. Embora os mais ricos tenham aumentado seus lucros nos governos do PT, esses lucros não aumentaram na proporção em que eles desejavam, pois eles experimentaram um aumento de custo com impostos, com trabalhadores e com as condições de trabalho, e isso desagradou profundamente essa elite do capital presente neste país. Já em 2006 a grande mídia tentou impedir a reeleição de Lula, e tentou impedir a eleição de Dilma em 2010, com táticas sujas de perversão da opinião pública. Como essas tentativas foram sem sucesso. Começou-se a sabotagem econômica a partir de 2011.
Então, o grande “erro” do PT foi ter feito os ricos dividirem um pouco de suas riquezas com seus trabalhadores. Eles não aceitam isso. Não aceitam perder nunca. Por isso, eles usaram seu poder econômico para derrubar a esquerda do poder neste país, e o mesmo ocorreu em outros países da América Latina governados pela esquerda. Parece mesmo que, neste mundo onde todos são incentivados a acumular riquezas, a praticar a avareza e a competir uns com os outros, não é possível um modelo de desenvolvimento econômico com inclusão social sem ao mesmo tempo satisfazer todas as vontades mais insanas da elite do capital mundial.
A China parece ter entendido isso. Ela foi o primeiro país comunista a praticar uma economia capitalista, dando ênfase na inclusão social e ao mesmo tempo satisfazendo todas as vontades dos grandes empresários que entraram lá a procura de mão de obra barata. Essa mudança econômica adotada na China foi em 1979, e o país, num espaço de tempo de cerca de 30 anos, conseguiu reduzir a pobreza de seu país de 68 % da população para 10 %. A partir de 1989, a China experimentou um crescimento econômico colossal, que a tirou de uma posição insignificante entre as potências mundiais para a posição atual de segunda maior economia do mundo, e a China continua a ser o país que mais cresce economicamente no mundo. O país combateu a pobreza interna de maneira espetacular, mas o fez ao mesmo tempo aumentando a sua concentração de renda, o que significa que o PIB geral lá aumentou mais do que o PIB dos pobres. Se os pobres da China ficaram mais ricos, os ricos de lá ficaram proporcionalmente ainda mais ricos. Sua estabilidade política também foi fundamental para que ela chegasse a ser uma economia tão inabalável. O partido comunista chinês nunca saiu do poder durante esse processo de capitalização de sua economia.
O SUCESSO DO MODELO ECONÔMICO E SOCIAL DAS NAÇÕES DESENVOLVIDAS
Mas será mesmo que é isso? No mundo em que vivemos, só é possível levar a prosperidade aos mais pobres se os mais ricos forem mais prósperos ainda? E o que dizer então dos países capitalistas europeus onde o trabalhador é valorizado e a desigualdade é relativamente baixa, como os países escandinavos? Por que países escandinavos têm desigualdade de renda entre as mais baixas do mundo? Isso não mostra que neles os ricos tiveram que dividir com os mais pobres? Isso não seria indício de que eles formam uma civilização superior, moralmente? Ou, por outro lado, isso não é evidência de que os trabalhadores desses países são os mais politizados do mundo, e que sua luta por direitos e por melhores salários obrigou os mais ricos de lá a dividirem suas riquezas com eles? O mesmo não teria acontecido nos outros países de primeiro mundo porque seus trabalhadores são altamente politizados e lutaram arduamente para conquistar o que hoje eles têm?
Sem dúvidas que as lutas trabalhistas foram e são fundamentais para a conquista de tantos direitos que os trabalhadores possuem hoje, mas tal luta não aconteceu apenas nos países de primeiro mundo. Essas revoluções trabalhistas vêm acontecendo também em países emergentes, como o Brasil, e neles também a classe trabalhadora conquistou direitos. No tempo da ditadura militar brasileira, houve até guerrilha urbana para se implantar o comunismo aqui. Sob pressão de tais lutas, até mesmo a ditadura militar concedeu direitos aos trabalhadores. Mas se em países como o Brasil também houve conquista de direitos, então por que os salários nesses países são tão baixos? Por que o poder de compra do proletariado dos países emergentes é tão inferior ao do proletariado dos países de primeiro mundo?
Sobre a questão da renda maior ou menor da classe trabalhadora, existe uma outra variável que independe das lutas trabalhistas. Esta variável é a renda per capta. E o que é a renda per capta, mais precisamente? Ela é definida como o PIB de um país em um determinado ano dividido pela população de tal país no mesmo ano. E o que é exatamente o PIB? Embora o PIB dos países do mundo seja medido em unidade monetária, o dólar, ele não mede a quantidade de dinheiro existente nos países, e, sim, a quantidade de bens e serviços produzidos nos países no período de um ano. Então, a renda per capta é, em outras palavras, a quantidade de bens e serviços que cada indivíduo de uma nação é capaz de produzir em um ano, se todos os indivíduos de tal nação fossem igualmente produtivos. É, por assim dizer, a produtividade per capta média de um país.
Isso significa dizer que a quantidade de bens e serviços por pessoa circulando nos países de primeiro mundo é muito alta. Para se ter uma idéia, a renda per capta da Noruega, ou sua quantidade de bens e serviços circulando por pessoa, é cerca de 5 vezes a do Brasil. Aí é que está o ponto: se um país tem uma quantidade muito alta de bens e serviços circulando dentro dele em comparação com sua população, isso significa que tais bens e serviços estão sendo comprados e consumidos. E quem os está comprando e consumindo? É a própria população de tal país. Ou seja, a alta produtividade de um povo faz com que ele também se torne um povo de alto padrão de consumo, o que, em última análise, os leva a ter poder aquisitivo maior do que o poder aquisitivo dos povos de renda per capta menor, até porque é interessante para a indústria que seus produtos sejam consumidos pelo maior número de pessoas possível.
Mas, então, se na Noruega cada pessoa produz 5 vezes mais do que cada brasileiro, em média, isso significa que o cidadão norueguês trabalha cinco vezes mais do que o brasileiro? Não. Isso significa que eles têm um desenvolvimento científico/tecnológico muito superior ao nosso. A grande utilidade da ciência e tecnologia no mundo capitalista é tornar os processos cada vez mais produtivos, o que leva a uma maior produção com cada vez menos trabalho. Então, se de um lado da balança a produção aumenta, do outro lado, a quantidade de trabalho para tal produção diminui, o que faz com que a carga horária de trabalho em países desenvolvidos seja aproximadamente a mesma de países emergentes como o Brasil. Analisando-se todo esse processo pela ótica da lei da oferta e da procura, o que temos é que um país de primeiro mundo, com alta renda per capta, tem uma oferta muito grande de bens e serviços dentro dele, o que faz com que os preços dos mesmos sejam baixos o suficiente para caberem dentro do bolso da classe trabalhadora.
Mas e quanto à desigualdade dos países de primeiro mundo? Por que ela tende a ser mais baixa do que a de outros países? Vamos primeiro falar sobre a desigualdade de renda da classe trabalhadora nos países de primeiro mundo. Os países escandinavos, por exemplo, onde se aplica a política do Estado de bem estar social, o qual promove saúde e educação gratuita de qualidade, não existe salário mínimo definido por lei. Neles, os salários são definidos pela negociação entre empregador e candidato a vaga de emprego. Mesmo nos países de primeiro mundo onde existe salário mínimo definido por lei, é comum os salários serem definidos por esse tipo de negociação. Mesmo assim, os salários mais baixos desses países dão ao trabalhador um poder de compra muito superior ao de salários baixos de países emergentes, e a desigualdade de salários neles também tende a ser menor do que no resto do mundo, o que indica que até o fenômeno da desigualdade social menor nesses países é um fenômeno econômico, e não tanto um fenômeno social.
Mas como isso? Quando os salários são definidos por negociação, e não por lei, vale aí também a lei da oferta e da procura, e não apenas a quantidade de riquezas que um determinado trabalho gera para sua empresa. Nos países desenvolvidos, a demanda por profissionais altamente qualificados é muito maior do que no resto do mundo, e, por isso, eles investem pesado em educação de qualidade e criam uma cultura que leva seus povos a buscarem o maior nível de qualificação possível, gerando também uma oferta muito grande de trabalhadores qualificados. À medida em que a quantidade de trabalhadores altamente qualificados no mercado de trabalho vai crescendo e a de trabalhadores de menor qualificação vai diminuindo, os salários de trabalhos altamente qualificado vão diminuindo e os de trabalhos de menor qualificação vão aumentando, o que diminui a desigualdade de renda entre esses dois tipos de trabalhadores. Considerando o fator riquezas que um trabalhador gera para uma empresa, que faz com que o salário de um dado trabalho seja maior quanto maior for a capacidade dele de gerar riquezas, temos que os trabalhos de maior qualificação geram mais riquezas do que os de menor qualificação, por terem um envolvimento maior com tecnologias, as quais, como foi dito antes, tornam os processos cada vez mais produtivos. Isto é um fator que pressiona pelo aumento da desigualdade de salários entre um e outro tipo de trabalhador, mas é necessário ressaltar que mesmo os trabalhadores de baixa qualificação dos países de primeiro mundo precisam ter um nível de qualificação e escolarização consideravelmente superior ao do mesmo tipo de trabalhador de países emergentes, pois também lidam com tecnologias superiores para aumentar a produtividade de seus trabalhos. Essas coisas são o que provavelmente explicam a menor desigualdade de salários desses países como fruto de um fenômeno econômico.
Quanto à desigualdade entre empresários e trabalhadores, ela é menor nos países de primeiro mundo porque as despesas de suas empresas tendem a ser proporcionalmente maior do que no resto do mundo pelo fato delas terem custos trabalhistas maiores. Porém, os empresários desses países são em média bem mais ricos do que os de países emergentes. Vamos imaginar que, no Brasil, por exemplo, uma empresa de 100 funcionários de um dado setor tenha uma despesa que equivalha a 60 % de sua receita, o que dá 40 % de margem de lucro sobre a receita ao empresário. Vamos imaginar que uma empresa de 100 empregados do mesmo setor, na Noruega, tenha uma despesa equivalente a 80 % de sua receita, o que faz com que a margem de lucro dessa empresa seja de apenas 20 %. Se, porém, a produtividade da empresa da Noruega for 5 vezes a da empresa brasileira, então o empresário da Noruega vai estar tirando uma margem de lucro de 20 % de uma receita 5 vezes maior do que a receita da empresa brasileira, da qual seu empresário tira uma margem de lucro de 40 %, fazendo com que, em última análise, o lucro do empresário da Noruega seja 2,5 vezes o lucro do empresário brasileiro.
Então veja como o padrão de qualidade de vida da população de países de primeiro mundo, em termos de poder aquisitivo do seu povo, é tão interessante aos empresários que estão presentes neles, mesmo nos países de Estado de bem estar social como os países escandinavos. Até a desigualdade social menor desses países é um fenômeno econômico que beneficia altamente a classe empresarial presente neles. E embora os países de primeiro mundo onde se aplica o Estado de bem estar social garanta muitos direitos à sua população, ele está, em última análise, mais a serviço dos grandes empresários do que de seus povos, visto que, por exemplo, o oferecimento de uma educação pública de qualidade a todos atende aos interesses de formação de mão de obra qualificada demandada pelas empresas, especialmente as grandes. Então os empresários desses países estão muito satisfeitos neles. Sua sede voraz por lucros e poder econômico e financeiro cada vez maiores é bem satisfeita dentro deles. Para as multinacionais, criar sociedades de alto padrão de consumo, pelo menos em uma quantidade não muito grande de países, atende bem aos seus interesses de busca por lucros cada vez maiores, pois seus produtos e serviços são consumidos em larga escala dentro desses países, e é por isso que eles não sofrem sabotagem do império capitalista.
Parece mesmo bacana isso: sociedades onde os trabalhadores foram valorizados pelo fenômeno da lei da oferta e da procura, em algumas das quais nem é necessário fixar um salário mínimo determinado por lei por este motivo. A lei da oferta e da procura é a base de todos os fenômenos econômicos, principalmente no capitalismo, onde o liberalismo econômico tende a estabelecer que o valor de qualquer coisa (e até de pessoas) seja determinado tão somente pela ação dessa lei. Por isso mesmo é que é comum a lei do salário mínimo ser violada em países capitalistas onde ela existe, onde muitos empregadores pagam salários abaixo do mínimo a muitos de seus funcionários pelo fato da lei básica de mercado citada acima determinar que eles valham menos do que tal salário.
DIREITOS SOCIAIS AMEAÇADOS NAS NAÇÕES DESENVOLVIDAS
Mas o que dizer disso tudo? A única opção viável para que trabalhadores tenham alto poder aquisitivo é essa? É necessário para isso que a sede voraz por poder econômico e financeiro dos grandes empresários seja satisfeita inteiramente? É isso aceitável desde que nós que estamos na base da pirâmide tenhamos bons salários? É preciso ficar claro que esses povos de alto padrão de consumo pagam um preço muito alto para isso: eles têm que ser produtivos demais. Se, por um lado, há países de primeiro mundo onde a carga horária é de apenas 6 horas por dia, você pode estar certo de que o tempo que esses povos passam estudando para adquirem qualificação para produzir tanto em apenas 6 horas de um dia é muito maior. Eles também estão sobrecarregados, como todos os povos dos países de economia capitalista. Somando-se o tempo que os povos de países desenvolvidos passam trabalhando com o tempo que eles passam estudando, é de se imaginar que eles estão bem mais sobrecarregados dos que os povos de países como o Brasil, pois tudo isso está a serviço de uma produtividade per capta muito alta.
Além disso, é necessário relembrar que esse fenômeno econômico que acaba beneficiando a classe trabalhadora de países de primeiro mundo a beneficia somente no âmbito econômico, pois os direitos a menores cargas horárias de trabalho e a melhores condições de trabalho, no sentido de preservar a saúde ocupacional dos trabalhadores, foram conquistados com muita luta e derramamento de sangue. Muitos trabalhadores morreram nessas lutas, as quais proporcionaram à classe trabalhadora mundial muitos direitos a uma melhor qualidade de vida, em maior ou menor grau, dependendo do país. Tais direitos, porém, estão ameaçados no mundo todo. A doutrinação capitalista, que estimula cada indivíduo na busca da realização de grandes sonhos individuais, destruiu a consciência de classe dos trabalhadores no mundo capitalista, desunindo-os e colocando-os como competidores uns dos outros à medida em que eles vão percebendo que têm sonhos individualistas em comum e que estão lutando pelas mesmas posições de prestígio social. Assim, a classe trabalhadora mundial desunida virou presa fácil para os grandes empresários, os quais se aproveitam disso para tirar direitos e mais direitos conquistados por ela. As reformas trabalhistas não aconteceram só no Brasil. São um fenômeno que tende a acontecer no mundo todo. E aí surge a pergunta: com uma alienação e uma desunião tão profundas, quantos direitos precisam ser tirados dos trabalhadores no mundo capitalista para que estes voltem a lutar por direitos como antigamente?
O QUE DEU ERRADO NO CAPITALISMO EM TODO O MUNDO
Mas uma pergunta ainda mais pertinente é esta: será que é possível termos uma sociedade com real qualidade de vida para todas enquanto o ser humano tiver uma natureza competitiva, a qual está dentro da raça humana desde muito antes de surgir o capitalismo, desde que o ser humano surgiu na terra? Será mesmo que é somente pelo conflito de classes que os trabalhadores vão conquistar real qualidade de vida? Será que a classe trabalhadora sequer chegou a conquistar uma qualidade de vida plena em qualquer lugar do mundo por meio das lutas por direitos, que eram verdadeiras guerras sangrentas no passado?
A humanidade sempre foi conflituosa. As disputas por poder e domínio sempre foram decididas na base da guerra. A ganância nunca permitiu que as nações fossem amigas e dividissem entre elas, de forma justa, as terras, os recursos naturais e os bens produzidos por elas. O atual conflito entre a classe dominante e a classe trabalhadora não garantiu a esta a realização de uma vida plena, até porque as taxas de suicídios tendem a ser bem maiores nas nações desenvolvidas do que no resto do mundo. Sobre a questão da natureza competitiva do ser humano, e não cooperativa, a classe dominante, como foi dito anteriormente, soube trabalhar bem essa debilidade humana para, por meio da doutrinação capitalista, corromper a classe trabalhadora, a qual facilmente caiu nesse engodo. Assim, os trabalhadores se desuniram e viraram inimigos uns dos outros, pois não há um ser humano na terra que não tenha desenvolvido uma natureza competitiva; e, agora, a classe dominante não está tendo muita dificuldade de reverter os direitos que eles conquistaram.
Como se tudo isso não fosse o bastante, vivemos um verdadeiro genocídio psicológico na atualidade. Nunca se viu tanta gente destruída por dentro. Transtornos mentais de todas as espécies vêm assolando terrivelmente a humanidade regida pelo capitalismo. E como poderíamos esperar algo diferente disso numa sociedade onde a competição, travestida de liberdade, é a base de todo o processo produtivo. Não é sufocante ter que se qualificar tanto e ter que disputar com tanta gente para tão somente ter uma colocação minimamente digna no mercado de trabalho? Não é sufocante para uma pessoa ter que estudar muito para a prova de um concurso e pensar, na hora que ela está sendo aplicada, que tem um monte de gente que também estudou muito e está fazendo a mesma prova, disputando com ela em pé de igualdade por algumas vagas em alguma empresa ou outra organização qualquer? Não é sufocante até para grandes empresários terem que estar constantemente antenados com as mudanças dinâmicas que ocorrem no mercado devido às novas tecnologias que vão surgindo e viverem tendo que reconstruir todo o seu negócio, de tempos em tempos, para não serem engolidos pela concorrência? Tal como nas Olimpíadas, as competições do sistema capitalista sempre têm poucos vencedores e muitos perdedores, os quais vão se tornando depressivos e angustiados à medida em que acumulam frustrações em disputas nas quais são derrotados.
Então, parece mesmo que não temos reais chances de vivermos uma vida plena, em todos os sentidos, enquanto o individualismo e a competição mútua forem a regra básica de todos os processos econômicos, políticos e sociais. Se é possível mudarmos essa nossa natureza, temos que persistir na busca por essa mudança, tentando descobrir continuamente como realizá-la e ao mesmo tempo sermos livres e felizes interiormente. Agora, se não é possível mudar tal natureza, então estamos destinados a ser uma raça profundamente infeliz enquanto existirmos. E então? O capitalismo deu certo mesmo, como costumam dizer aqueles que vivem atacando o comunismo? Só deu certo como um sistema excessivamente produtivo e capaz de engolir economias de menor produtividade que não se ajustam aos seus interesses de dominação. Mas deu totalmente errado no sentido de produzir real bem estar social, psicológico e existencial para seus povos. Neste sentido, o capitalismo é uma catástrofe humanitária sem precedentes, e isso faz dele o sistema que mais deu errado em toda a História.